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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Médicos do Sírio e do Einstein abrem clínica


Bem na entrada da favela de Heliópolis, entre uma agência bancária e uma loja de departamentos, desponta uma clínica médica que só realiza consultas particulares. Não vale convênio, tampouco cartão do SUS.

Quem passa ali, estranha. Muitos moradores custam a ter coragem de entrar. Só perdem o medo na medida em que o boca a boca se espalha ou quando leem um cartaz bem à frente do portão que informa, em linguagem clara e direta, o valor das consultas: R$ 40 para clínico-geral e R$ 60 para qualquer uma das dez especialidades oferecidas, que pode ser dividido em duas parcelas.

"Quem disse que essa população não pode ir ao médico particular?", questiona o criador do Dr. Consulta, Thomaz Srougi. Ele se refere ao seu público-alvo: gente sem plano de saúde e cansada das filas dos postos públicos. O perfil exato dos moradores da maior favela da cidade.

Para atendê-los, a estrutura é simples, porém bem equipada. Nos consultórios - separados por divisórias de fórmica e com cadeiras de plástico -, há equipamentos caros, como o usado em exames oftalmológicos e o de ultrassonografia, além do eletrocardiograma. Em casos mais sérios, em que seja necessária a internação, os pacientes são encaminhados ao hospital público.

O atendimento é feito por uma dúzia de médicos, todos formados em universidades conceituadas e integrantes do corpo clínico de hospitais de ponta, como o Sírio-Libanês e o Albert Einstein. O diretor da clínica, por exemplo, é Cesar Camara, indicado por Miguel Srougi, um dos urologistas mais conceituados da cidade e pai de Thomaz.

Na quarta-feira passada, Cesar saiu de Heliópolis e tomou o metrô Sacomã em direção ao Sírio, para atender um dos seus pacientes. Em seu consultório, a consulta custa R$ 450, sete vez o que pagou cada um dos dez pacientes atendidos naquela tarde.

"Engajei-me no projeto porque consigo garantir um atendimento humanizado. Tem consultas em que levo 40 minutos, mesmo tempo que pratico no consultório particular, o que seria impossível na realidade dos convênios."

Todos os médicos dali já haviam atendido por planos privados e recebem em Heliópolis o mesmo que ganhariam em um convênio: cerca de R$ 40 por hora. A diferença é que estão livres das conhecidas metas de atendimento que encurtam as consultas a cada dia. "Selecionamos os médicos por esse perfil humanizado. É importante serem egressos das melhores universidades, mas isso não basta", diz Cesar.

De longe. Mesmo que a maioria do público não se atente ao nome do Sírio-Libanês costurado no jaleco do urologista - "a população daqui nunca ouviu falar do hospital", brinca Cesar -, já começa a pipocar por ali um ou outro paciente vindo de longe. Dia desses, Cesar atendeu um homem que havia se locomovido do Paraíso (bairro de classe média alta e a pelo menos meia hora de distância, de carro).

Se a pessoa tinha ou não dinheiro para pagar mais pelo atendimento, não interessa, diz Thomaz. "Essa procura é boa. Sinaliza que há muito espaço de crescimento."

Desde sua inauguração, em agosto de 2011, a clínica tem crescido 40% por mês e hoje realiza 600 procedimentos a cada 30 dias. A conta ainda não fecha porque houve investimento de cerca de R$ 1 milhão em estrutura, mas a receita tem aumentado à medida que a população descobre o local. Dos 300 mil habitantes da microrregião, só 10% conhecem a clínica, segundo pesquisa encomendada por Thomaz.

Nos sonhos do administrador, ele vê uma clínica em cada um dos 96 distritos da capital. Só para garantir o público, as próximas unidades devem ser instadas em bairros periféricos, como Itaquera e São Miguel Paulista, na zona leste. "Inspirei-me em projetos parecidos em países como Guatemala e México. Testei, adaptei e agora quero crescer, sempre seguindo essa lógica simples, de gerar renda ao mesmo tempo em que agrego um valor muito importante à população."



Fonte: O Estado de S. Paulo | 22/07/2012 08h39
http://www.estadao.com.br/noticias/geral,medicos-do-sirio-e-do-einstein-abrem-clinica-particular-em-heliopolis,903810,0.htm

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Entrevista com o Dr. Jorge Carvajal - Medicina Bioenergética

Entrevista com o Dr. Jorge Carvajal, médico cirurgião da Universidadede Andaluzia, Espanha, pioneiro da Medicina Bioenergética. 10 de março de 2009.
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Qual adoece primeiro: o corpo ou a alma?
- A alma não pode adoecer, porque é o que há de perfeito em ti, a alma evolui, aprende. Na realidade, boa parte das enfermidades são exatamente o contrário: são a resistência do corpo emocional e mental à alma. Quando nossa personalidade resiste aos desígnios da alma, adoecemos.

A Saúde e as Emoções

Há emoções prejudiciais à saúde? Quais são as que mais nos prejudicam?
- 70 por cento das enfermidades do ser humano vêm do campo da consciência emocional. As doenças muitas vezes procedem de emoções não processadas, não expressadas, reprimidas. O medo, que é a ausência de amor, é a grande enfermidade, o denominador comum de boa parte das enfermidades que temos hoje. Quando o temor se congela, afeta os rins, as glândulas suprarrenais, os ossos, a energia vital, e pode converter-se em pânico.

Então nos fazemos de fortes e descuidamos de nossa saúde?
- De heróis os cemitérios estão cheios. Tens que cuidar de ti. Tens teus limites, não vás além. Tens que reconhecer quais são os teus limites e superá-los, pois, se não os reconheceres, vais destruir teu corpo.

Como é que a raiva nos afeta?
- A raiva é santa, é sagrada, é uma emoção positiva, porque te leva à auto-afirmação, à busca do teu território, a defender o que é teu, o que é justo. Porém, quando a raiva se torna irritabilidade, agressividade, ressentimento, ódio, ela se volta contra ti e afeta o fígado, a digestão, o sistema imunológico.

Então a alegria, ao contrário, nos ajuda a permanecer saudáveis?
- A alegria é a mais bela das emoções, porque é a emoção da inocência, do coração e é a mais curativa de todas, porque não é contrária a nenhuma outra. Um pouquinho de tristeza com alegria escreve poemas. A alegria com medo leva-nos a contextualizar o medo e a não lhe darmos tanta importância.

A alegria acalma os ânimos?
- Sim, a alegria suaviza todas as outras emoções, porque nos permite processá-las a partir da inocência. A alegria põe as outras emoções em contato com o coração e dá-lhes um sentido ascendente. Canaliza-as para que cheguem ao mundo da mente.


E a tristeza?
- A tristeza é um sentimento que pode te levar à depressão quando te deixas envolver por ela e não a expressas, porém ela também pode te a judar. A tristeza te leva a contatares contigo mesmo e a restaurares o controle interno. Todas as emoções negativas têm seu próprio aspecto positivo. Tornamo-las negativas quando as reprimimos.

Convém aceitarmos essas emoções que consideramos negativas como parte
de nós mesmos?

- Como parte para transformá-las, ou seja, quando se aceitam, fluem, e já não se estancam e podem se transmutar. Temos de as canalizar para que cheguem à cabeça a partir do coração. Que difícil! Sim, é muito difícil. Realmente as emoções básica são o amor e o medo (que é ausência de amor), de modo que tudo que existe é amor, por excesso ou deficiência. Construtivo ou destrutivo. Porque também existe o amor que se aferra, o amor que superprotege, o amor tóxico, destrutivo.

Como prevenir a enfermidade?
- Somos criadores, portanto crei o que a melhor forma é criarmos saúde. E, se criarmos saúde, não teremos que prevenir nem combater a enfermidade, porque seremos saúde.

E se aparecer a doença?
- Teremos, pois, de aceitá-la, porque somos humanos. Krishnamurti também adoeceu de um câncer de pâncreas e ele não era alguém que levasse uma vida desregrada. Muita gente espiritualmente muito valiosa já adoeceu. Devemos explicar isso para aqueles que crêem que adoecer é fracassar. O fracasso e o êxito são dois mestres e nada mais. E, quando tu és o aprendiz, tens que aceitar e incorporar a lição da enfermidade em tua vida... Cada vez mais as pessoas sofrem de ansiedade. A ansiedade é um sentimento de vazio, que às vezes se torna um oco no estômago, uma sensação de falta de ar. É um vazio existencial que surge quando buscamos fora em vez de buscarmos dentro. Surge quando busca mos nos acontecimentos externos, quando buscamos muleta, apoios externos, quando não temos a solidez da busca interior. Se não aceitarmos a solidão e não nos tornarmos nossa própria companhia, sentiremos esse vazio e tentaremos preenchê-lo com coisas e posses. Porém, como não pode ser preenchido de coisas, cada vez mais o vazio aumenta.


Então, o que podemos fazer para nos libertarmos dessa angústia?
- Não podemos fazer passar a angústia comendo chocolate ou com mais calorias, ou buscando um príncipe fora. Só passa a angústia quando entras em teu interior, te aceitas como és e te reconcilias contigo mesmo. A angústia vem de que não somos o que queremos ser, muito menos o que somos, de modo que ficamos no "deveria ser", e não somos nem uma coisa nem outra.

O stress é outro dos males de nossa época. O stress vem da competitividade, de que quero ser perfe ito, quero ser melhor, quero ter uma aparência que não é minha, quero imitar. E realmente só podes competir quando decides ser um competidor de ti mesmo, ou seja, quando queres ser único, original, autêntico e não uma fotocópia de ninguém. O stress destrutivo prejudica o sistema imunológico. Porém, um bom stress é uma maravilha, porque te permite estar alerta e desperto nas crises e poder aproveitá-las como oportunidades para emergir a um novo nível de consciência.

O que nos recomendaria para nos sentirmos melhor com nós mesmos?
- A solidão. Estar consigo mesmo todos os dias é maravilhoso. Passar 20 minutos consigo mesmo é o começo da meditação, é estender uma ponte para a verdadeira saúde, é aceder o altar interior, o ser interior. Minha recomendação é que a gente ponha o relógio para despertar 20 minutos antes, para não tomar o tempo de no ssas ocupações. Se dedicares, não o tempo que te sobra, mas esses primeiros minutos da manhã, quando estás rejuvenescido e descansado, para meditar, essa pausa vai te recarregar, porque na pausa habita o potencial da alma.

O que é para você a felicidade?
- É a essência da vida. É o próprio sentido da vida. Estamos aqui para sermos felizes, não para outra coisa. Porém, felicidade não é prazer, é integridade. Quando todos os sentidos se consagram ao ser, podemos ser felizes. Somos felizes quando cremos em nós mesmos, quando confiamos em nós, quando nos empenhamos transpessoalmente a um nível que transcende o pequeno eu ou o pequeno ego. Somos felizes quando temos um sentido que vai mais além da vida cotidiana, quando não adiamos a vida, quando não nos alienamos de nós mesmos, quando estamos em paz e a salvo com a vida e com nossa consciência.


Viver o Presente

É importante viver no presente? Como conseguir?
- Deixamos ir-se o passado e não hipotecamos a vida às expectativas do futuro quando nos ancoramos no ser e não no ter, ou a algo ou alguém fora. Eu digo que a felicidade tem a ver com a realização, e esta com a capacidade de habitarmos a realidade. E viver em realidade é sairmos do mundo da confusão.

Na sua opinião, estamos tão confusos assim?
- Temos três ilusões enormes que nos confundem:
Primeiro: cremos que somos um corpo e não uma alma, quando o corpo é o instrumento da vida e se acaba com a morte.
Segundo: cremos que o sentido da vida é o prazer, porém com mais prazer não há mais felicidade, senão mais dependência... Prazer e felicidade não são o mesmo. Há que se consagrar o prazer à vida e não a vida ao prazer.
Terceiro: ilusão é o poder; desejamos o poder infinito de viver no mundo.

E do que realmente necessitamos para viver? Será de amor, por acaso?
- O amor, tão trazido e tão levado, e tão caluniado, é uma força renovadora. O amor é magnífico porque cria coesão. No amor tudo está vivo, como um rio que se renova a si mesmo. No amor a gente sempre pode renovar-se, porque ordena tudo. No amor não há usurpação, não há transferência, não há medo, não há ressentimento, porque quando tu te ordenas, porque vives o amor, cada coisa ocupa o seu lugar, e então se restaura a harmonia. Agora, pela perspectiva humana, nós o assimilamos com a fraqueza, porém o amor não é fraco.

Enfraquece-nos quando entendemos que alguém a quem amamos não nos ama. Há uma grande confusão na nossa cultura. Cremos que sofremos por amor, porém não é por amor, é por paixão, que é uma variação do apego. O que habitualmente chamamos de amor é uma droga. Tal qual se depende da cocaína, da maconha ou da morfina, também se depende da paixão. É uma muleta para apoiar-se, em vez de levar alguém no meu coração para libertá-lo e libertar-me. O verdadeiro amor tem uma essência fundamental que é a liberdade, e sempre conduz à liberdade. Mas às vezes nos sentimos atados a um amor. Se o amor conduz à dependência é Eros. Eros é um fósforo, e quando o acendes ele se consome rapidamente em dois minutos e já te queima o dedo.

Há amores que são assim, pura chispa. Embora essa chispa possa servir para acender a lenha do verdadeiro amor. Quando a lenha está acesa, produz fogo. Esse é o amor impessoal, que produz luz e calor.

Pode nos dar algum conselho para alcançarmos o amor verdadeiro?
- Somente a verdade. Confia na verdade; não tens que ser como a princesa dos sonhos do outro, não tens que ser nem mais nem menos do que és. Tens um direito sagrado, que é o direito de errar; tens outro, que é o direito de perdoar, porque o erro é teu mestre. Ama-te, sê sincero contigo mesmo e leva-te em consideração. Se tu não te queres, não vais encontrar ninguém que possa te querer. Amor produz amor. Se te amas, vais encontrar amor. Se não, vazio. Porém nunca busques migalhas, isso é indigno de ti. A chave então é amar-se a si mesmo. E ao próximo como a ti mesmo. Se não te amas a ti, não amas a Deus, nem a teu filho, porque estás apenas te apegando, estás condicionando o outro. Aceita-te como és; não podemos transformar o que não aceitamos, e a vida é uma corrente permanente de transformações.

Fonte: Email enviado por Maria Aparecida Kappaz via Prof. Dr. Maurício Paes Landim

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Estive a pensar...

Embebido em um caminho dito científico
me atrevo a algumas considerações que,
por necessidade minha, aprendida, vale dizer,
ponho no papel como se, assim o fazendo,
pudesse concretizar este diálogo
com estas pessoas em mim.

Não penso no CID que automaticamente cabe na mente
acerca das personalidades múltiplas;

tampouco na genialidade do poeta português que foi tantos....
Penso, antes, nesta vivência fragmentadora que nos permeia o ser,
que rompe o que há de possível em nós
e que nos obriga, se tendemos à sanidade, à cisão.

A verdade clínica que hoje Está
é o resultado de um sem-fim de movimentos

que passaram pela magia,
pela observação,
que percorreram os anseios da Escola de Cós,
que sofreram com a cultura onde se embebiam,
que curaram,
que erraram,
que perderam e construíram.

Este movimento rastejante, serpentínico, cíclico,
o construir-se em si mesmo que tem sido esta nossa inestimável medicina, hoje Está.

A prática atual é refletida nos números,
a ciência racional é a ciência do teorizável,
do mensurável...”vejo, logo existe”; “teorizo, logo existo”.

O subjetivo passa pela estatística; o não comprovável, deixa de existir,
tal qual uma criança que ignora o que os olhos não alcançam,
a ciência subestima e mal vê o que suas técnicas não tangenciam.

Mas uma criança sonha.....

Neste caldo, imerso nesta polis imediatista,
amedrontada pela perda,
assombrada pelo tempo que se acelerou,
caminha esta nossa clínica, tão amante do bem,
sem dúvida,
mas o bem tem forma, cor e cheiro....o bem tem dosagem.

Me preocupa
qual será o tamanho desta sombra que repousa
por detrás destes castelos simétricos e conhecidos;
qual será a profundidade destas águas
onde navegam estes engenhosos navios?

Em minha prática diária vejo o caminho do humano pelo humano.
Me permito ver o ser que caminha e tropeça,
me permito ver que caminho e tropeço...
E então podemos levantar....um e outro
como dois errantes transeuntes que
puderam se encontrar.

É mais fácil ver o que há dentro da janela
quando se abre a janela....já nos ensinava o poeta:


“Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.”


Hoje estive a pensar nestas técnicas,
nestas estratégias tão vislumbradas por tantos....

e em como cada um de nós, estes pressupostos terapeutas,
estes chamados clínicos,
não podemos ser tomados por tantas teorias, estes delírios feitos verdades,
estes sonhos reducionistas da mesmice vulgar das coisas a que chamamos de estratégias terapêuticas.......mas o que é curar.......não sei.
Me preocupa que pressuponham que tenha as respostas para as doenças
se nem ao menos posso conhecer as perguntas.
Me assombra saber que esta luz da razão
gera em si mesma...a sombra da subjetividade que com tanto afinco pretendemos ignorar...mas ela não morre, tal qual o personagem de Drummond, ela é dura.....e não morre.
Sem maiores revoltas,
penso no escutar cuidadoso e sincero,
penso no toque honesto na pele,
penso no choro compartilhado,
penso nas histórias que se cruzam,
penso nestes passos que são nossos,
penso no sono perdido e no árduo trabalho,
penso no esforço deste entregar-se,
penso em mim a ser eu mesmo,

e penso.....
que a clínica do olhar profundo
da empatia sincera
não tem que ser aprendida,
tem que ser permitida,
posto que brota do infinito humano em nós
para o sem-fim humano do outro
sem números, cores ou doses.

E neste instante puramente clínico, um sorriso pode fazer tudo ganhar mais sentido....

Por Pedro Shiozawa

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Apresentação Projeto AMARGEN

“Os usuários não têm condições de fazer um tratamento convencional do ponto de vista psicológico, isso não funciona, para eles.
A proposta do Flavio, para mim, é a mais completa em termos de atendimento, porque ela não só faz o acolhimento, mas também busca aquele algo que transcende ao processo pessoal... vai mais além... segue na busca da espiritualidade.” (Suely Nassif, 2011)


Este é um projeto que resgata a essência da condição humana religando o processo de individuação à espiritualidade, como preconizou Jung.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Autismo Infantil

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as cousa e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas)
(Fernando Pessoa)
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HISTÓRICO
Em 1943, Kanner estudou e descreveu a condição de 11 crianças consideradas que exibiam uma incomum incapacidade de se relacionarem com outras pessoas e com os objetos, também apresentavam desordens graves no desenvolvimento da linguagem. A maioria delas não falava e, quando falavam, eram comuns a ecolalia, inversão pronominal e o concretismo. O comportamento delas era salientado por atos repetitivos e estereotipados; não suportavam mudanças de ambiente e preferiam o contexto inanimado. O termo autismo se referia à características de isolamento e auto-concentração dessas crianças, mas também sugeria alguma associação com a esquizofrenia.

No final da década de 70 Rutter descreveu o Transtorno Autista como sendo uma síndrome caracterizada pela precocidade de início e, principalmente, pelas perturbações das relações afetivas com o meio. Dizia que o autista possuía uma incapacidade inata para estabelecer qualquer relação afetiva, bem como para responder aos estímulos do meio. Daí em diante, vários pesquisadores foram revelando uma distinção cada vez mais evidente entre o autismo e a esquizofrenia.

Na década de 50 os autores norte-americanos, por mero pudor da palavra psicose, denominavam essas crianças como crianças atípicas ou possuidoras de um desenvolvimento atípico ou excepcional. A partir da década de 60 as psicoses infantis foram divididas em dois tipos, as psicoses da primeira infância e as psicoses da segunda infância. Dentre as psicoses da primeira infância foi colocado o Autismo Infantil Precoce. Portanto, foi entendido como um transtorno primário, diferente das outras formas de transtornos infantil secundários à lesões cerebrais ou retardamento mental.

Na Europa, notadamente na França, o conceito de Esquizofrenia Infantil foi substituído pelo conceito de Psicose Infantil, bem onde se enquadra o Autismo. Portanto, também para os franceses, o Autismo Infantil é uma psicose. Mais precisamente, o termo psicose infantil precoce se aplica às psicoses que se iniciam na primeira infância, enquanto a Esquizofrenia Infantil, propriamente dita, ficou reservada aos quadros com início mais tardios, porém, que surgem depois da criança Ter passado por um desenvolvimento relativamente normal.

INCIDÊNCIA
O autismo acomete crianças do sexo masculino em uma proporcão de 5:1 em comparação com crianças do sexo feminino. A incidência do distúrbio é bastante variado e depende de critérios diagnósticos e investigativos de diferentes pesquisadores, variando dentro de uma faixa de 5 a 15 casos em cada 10.000 indivíduos.

SINTOMAS
É fundamental a observação de que pacientes autistas apresentam bastante precocemente, déficits cognitivos que limitam sua interação com o meio. Também é universalmente reconhecida a grande dificuldade que os autistas têm em relação à expressão das emoções. Faria parte dessa anormalidade específica uma incapacidade de reconhecer a emoção no rosto dos outros, uma falha constitucional envolvendo os afetos, uma ausência de coordenação sensório- afetivo e déficits afetivos comprometendo as habilidades cognitivas e de linguagem. Dessa maneira, o quadro sintomático de pacientes autistas é marcado por uma incapacidade de constituir contato afetivo de maneira comum.

DIAGNÓSTICO
Segundo o DSM.IV, os Transtornos Invasivos do Desenvolvimento, onde se inclui o Autismo Infantil, se caracterizam por prejuízo severo e invasivo em diversas áreas do desenvolvimento, tais como: nas habilidades da interação social, nas habilidades de comunicação, nos comportamentos, nos interesses e atividades. Os prejuízos qualitativos que definem essas condições representam um desvio acentuado em relação ao nível de desenvolvimento ou idade mental do indivíduo. Esta seção do DSM.IV inclui o Transtorno Autista, Transtorno de Rett, Transtorno Desintegrativo da Infância e o Transtorno de Asperger. De maneira mais ou menos comum, esses Transtornos se manifestam nos primeiros anos de vida e, freqüentemente, estão associados com algum grau de Retardo Mental. Os Transtornos Invasivos do Desenvolvimento são observados, por vezes, juntamente com um grupo de várias outras condições médicas gerais, como por exemplo, com outras anormalidades cromossômicas, com infecções congênitas e com anormalidades estruturais do sistema nervoso central.

CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS PARA TRANSTORNO AUTISTA
A. Um total de seis (ou mais) itens de (1), (2) e (3), com pelo menos dois de (1), um de (2) e um de (3):

(1) prejuízo qualitativo na interação social, manifestado por pelo menos dois dos seguintes aspectos:
(a) prejuízo acentuado no uso de múltiplos comportamentos não-verbais tais como contato visual direto, expressão fácil, postura corporais e gestos para regular a interação social.
(b) fracasso em desenvolver relacionamentos com seus pares apropriados ao nível do desenvolvimento
(c) falta de tentativa espontânea de compartilhar prazer, interesses ou realizações com outras pessoas (por ex., não mostrar, trazer ou apontar objetos de interesse) falta de reciprocidade social ou emocional

(2) prejuízos qualitativos da comunicação, manifestados por pelo menos um dos seguintes aspectos:
(a) atraso ou ausência total de desenvolvimento da linguagem falada (não acompanhando por uma tentativa de compensar através de modos a alternativos de comunicação tais como gestos ou mímica)
(b) em indivíduos com fala adequada, acentuado prejuízo na capacidade de iniciar ou desenvolver uma conversação
(c) uso estereotipado e repetitivo da linguagem ou linguagem idiossincrática, falta de jogos ou brincadeiras de imitação social variados e espontâneos apropriados ao nível do desenvolvimento

(3) padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses, e atividades, manifestados por pelo menos um dos seguintes aspectos:
(a) preocupação insistente com um ou mais padrões estereotipados e restritos de interesse, anormais em intensidade ou foco
(b) adesão aparentemente inflexível a rotinas ou rituais específicos e não-funcionais
(c) maneiras motores estereotipados e repetitivos (por ex., agitar ou torcer mãos ou dedos, ou movimentos complexos de todo o corpo)
(d) preocupação persistente com partes de objetos

B. Atrasos ou funcionamento anormal em pelo menos uma das seguintes áreas, com início antes dos 3 anos de idade; (l) interação social, (2) linguagem para fins de comunicação social, ou (3) jogos imaginativos ou símbolos.

C. A perturbação não é melhor explicada por Transtorno de Rett ou Transtorno Desintegrativo da Infância.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), através de sua Classificação Internacional das Doenças, 10ª revisão (CID.10), refere-se ao Autismo Infantil (ou síndrome de Kanner) como uma Síndrome existente desde o nascimento ou que começa quase sempre durante os trinta primeiros meses, onde as respostas aos estímulos auditivos e às vezes aos estímulos visuais são anormais, havendo, habitualmente, graves dificuldades de compreensão da linguagem falada. A fala é atrasada e, quando desenvolve, caracteriza-se por ecolalia, inversão de pronomes, imaturidade da estrutura gramatical e incapacidade de empregar termos abstratos.

Geralmente há uma alteração do uso social da linguagem verbal e gestual. Os problemas de relação com os outros são os mais graves antes dos 05 anos de idade e comportam principalmente um defeito de fixação do olhar, das ligações sociais e da atividade de brincar.

Portanto, sobre o Autismo Infantil a CID.10 diz tratar-se de "um transtorno invasivo de desenvolvimento definido pela presença de desenvolvimento anormal e/ou comprometido que se manifesta antes da idade de 3 anos e pelo tipo característico de funcionamento anormal em todas as três áreas de interação social, comunicação e comportamento restrito e repetitivo. Sublinha que o transtorno ocorre em garotos três ou quatro vezes mais freqüentemente que em meninas.
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meu olhar azul como o céu É calmo como a água ao sol. É assim, azul e calmo, Porque não interroga nem se espanta ... Se eu interrogasse e me espantasse Não nasciam flores novas nos prados Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo... (Mesmo se nascessem flores novas no prado E se o sol mudasse para mais belo, Eu sentiria menos flores no prado E achava mais feio o sol ... Porque tudo é como é e assim é que é, E eu aceito, e nem agradeço, Para não parecer que penso nisso...)
(Fernando Pessoa)
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Por Pedro Shiozawa

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Projeto AmarGen - o gen do amor

O PROJETO AMARGEN é uma possibilidade de abordagem na área de saúde mental e uma resposta à realidade vivida pelos profissionais e usuários de saúde mental do CAPS de São Bernardo do Campo, um local de condições precárias e um inchaço de demanda não atendida: a falta de amor, processo vivido em muitas instituições psiquiátricas.

Este projeto parte da premissa de que existe um artista no interior de cada um de nós, pois a expressão artística é inerente ao humano. Acreditamos também que de alguma forma todos estamos doentes neste planeta e que a busca da cura também nos é inerente. Padecemos por viver no mundo da separação (mente-corpo, espírito-matéria, masculino-feminino) e nos curamos na medida em que re-conectamos estes opostos. O sentimento de amor é um poderoso “remédio” como elemento de ligação. Segundo o português lusitano arcaico, a ARTE é o Amor Refletido no Tempo e no Espaço, e o Amor significa A – sabedoria – e MOR – maior.

É através da arte e de técnicas corporais que buscamos proporcionar uma vivência transformadora aos usuários dos serviços de saúde mental, tendo como objetivo:

1) Viabilizar a inclusão de recursos artísticos, como o palhaço, a dança e o teatro;
2) Viabilizar a produção de espetáculos artísticos;
3) Viabilizar a inclusão de abordagens corporais, como a Yoga e a massagem ayurvédica;
4) Oferecer uma perspectiva profissional através do ofício do artista;
5) Gerar renda capacitando os usuários para se tornarem agentes comunitários na atuação em populações com patologias semelhantes às por eles apresentadas (como a dependência química);
6) Incluir a perspectiva do sagrado.

Até o momento, o fator avaliado no projeto foi a adesão dos usuários do CAPS ao tratamento. O psiquiatra Flávio Falcone fez um estudo num corte de 4 meses (julho-outubro/2009) comparando 2 tipos de trabalho. Os usuários escolhem de quais grupos participar: psicoterapia+medicação ou grupo de teatro+psicoterapia+medicação.

Grupo Psicoterapia+Medicação
Incrições: 242 pacientes
Permanecem em tratamento: 15 pacientes
Adesão: 6,66%

Grupo Teatro+Psicoterapia+Medicação
Incrições: 51 pacientes
Permanecem em tratamento: 23 pacientes
Adesão: 45%

Ambos os grupos foram coordenados pelo mesmo terapeuta, o fator empatia passa a ser o mesmo nos dois e, portanto, o resultado confere maior credibilidade ao trabalho desenvolvido.

Para sua efetiva realização e continuidade, o Projeto busca parcerias públicas, organizações não governamentais, fundos internacionais, empresas privadas.










Por Dr. Flávio Falcone
Psiquiatra | Bailarino | Palhaço


sábado, 11 de junho de 2011

Autismo no Cinema

O filme Amargo Pesadelo estava sendo rodado no interior dos Estados Unidos. O diretor fez a locação de um posto de gasolina nos confins do mundo, onde aconteceria uma cena entre vários atores contracenando com o proprietário do posto onde ele também morava com sua mulher e filho. Este último autista e nunca saía do terreno da casa.

A equipe parou no posto de gasolina para abastecer e aconteceu a cena mais marcante que o diretor teve a felicidade de encaixar no filme.

Num dos cortes para refazer a cena do abastecimento, um dos atores que sendo músico sempre andava acompanhado do seu instrumento de cordas aproveitando o intervalo da gravação e já tendo percebido a presença de um garoto que dedilhava um banjo na varanda da casa aproximou-se e começou a repetir a sequência musical do garoto.

Como houve uma 'resposta musical" por parte do garoto, o diretor captou a importância da cena e mandou filmar. O restante vocês verão no vídeo.

Atentem para alguns detalhes:
- O garoto é verdadeiramente um autista;
- ele não estava nos planos do filme;
- A alegria do pai curtindo o duelo dos banjos... dançando
- A felicidade da mãe captada numa janela da casa;
- A reação autêntica de um autista quando o ator músico quer cumprimentá-lo.

Vale a pena o duelo, a beleza do momento e, mais que tudo, a alegria do garoto. A sua expressão. No início está distante, mas, à medida que toca o seu banjo, ele cresce com a música e vai se deixando levar por ela, até transformar a sua expressão num sorriso contagiante, transmitindo a todos a sua alegria.


A alegria de um autista, que é resgatada por alguns momentos, graças a um violão forasteiro. O garoto brilha, cresce e exibe o sorriso preso nas dobras da sua deficiência, que a magia da música traz à superfície.

Depois, ele volta para dentro de si, deixando a sua parcela de beleza eternizada "por acaso" no filme "Amargo Pesadelo" (Ano: 1972).


Seleção da Equipe Comentada

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Um pouco mais sobre a trajetória da Mariposa

Concordo que a mariposa busca a luz, fica presa e morre. Mas isso só acontece quando ela busca sua liberdade na luz errada, ou seja, na luz artificial. Durante sua vida, ela busca a luz por diversas vezes e, encontrando a luz natural, ela voa livre. Mas, em um dia fatídico, depara-se com o não-natural, e morre. O que é a luz artificial senão uma imitação da luz natural do sol? O que o artificial causa na vida do homem? E dos animais? O conforto do artificial traz o alto preço da morte, muitas vezes. Creio que uma discussão interessante poderia surgir desse tema...

E o que é o espantalho senão um homem artificial, criado para enganar o corvo, assim como a luz engana a mariposa? O espantalho pode, então, ser a encarnação daquilo que o homem cria para seu próprio benefício em detrimento do susto, do medo e da morte do outro, sendo esse outro encarnado aqui pelo animal. Assim como o corvo e a mariposa se deixam enganar pela luz e pelo homem artificial, também nós nos deixamos enganar por 'remédios' e 'soluções' que nossas culturas trazem, como o próprio processo de letramento...

Renata Quirino de Sousa

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Mariposa: uma metáfora sobre a clínica

Depois de algum tempo sem escrever
sou embalado pela lembrança de uma mariposa como esta a pousar na luminária,
que a mim, me são duas:

Há alguns anos um amigo querido, dado àquilo que outrora considerei exotérico por não me atrever ao esotérico, me remeteu ao símbolo da mariposa: o flutuar entre o ser e o já não - estar, este que para ele era a travessia.

Carreguei por tanto aquela imagem, por vezes me lembrando, por vezes deixando-me esquecer.

Passaram-se os anos e, durante a faculdade retomei com freqüência estrofes inusitadas de poesias lidas ao acaso, umas mais constantemente que outras, em situações diferentes que fossem: temos sido cúmplices camaradas, amigos antigos, confidentes de viagens.

A mariposa esteve a plainar para no momento seguinte voar para longe e depois retornar.

Na rotina árdua as exigências passaram a ser outras e o navegante acreditou e perdeu e sofreu e ganhou e lutou e mudou e ousou e voltou a ousar...

Sempre no caos da improbabilidade do dia a voltar a si mesmo, ao cerne do que começou a andar, à rosa única do planeta, àquilo que se é e se perde em nós.

A clínica passou a fazer-se rotina, mas afinal o que é a clínica para este que há tão pouco se apresentou?

Não acredito que possa se distanciar muito da fantasia feita desejo: o cuidar, o sentir cuidar. Mas as dores passadas e as por passar distanciaram o transeunte primordial do inocente e verdadeiro sentido: o navegante foi encerando-se em si mesmo de modo a se tornar, sem sabê-lo, em um torpe espantalho.

O sentir cuidar se transformou no não desconstruir; a verdade do toque tem sido substituída pela probabilidade do número; o olhar, pelo registrar; o estar pelo vir-a-ser.

Aos poucos os corvos assustados pelo objeto de palha, voltam ao campo. O eterno poder ser do espantalho torna-se o nunca se transformar, e então, o medo da ave esvai-se com a coragem do homem de palha: o navegante está à deriva para não mais voltar.

A mariposa pousada na luminária passa a ser apenas mariposa pousada na luminária: silêncio.

Pedro Shiozawa

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

"Não consigo parar..." - Um caso de TOC

Caso:
Maria tem 18 anos, lava louças, as seca e as guarda, lava a pia. Ela “não consegue ver nada sujo”, varre a casa, passa pano no chão, puxa a água do chuveiro, arruma a própria cama diversas vezes. Troca de roupa na hora se esta ficar suja. Separa e classifica os livros, por tamanho, cor ou tipo. Se contrariada, irrita-se. Movimenta a língua para os lados e para frente, tocando o queixo. Rói as unhas. Puxa os cabelos. Episódios de auto-agressão. Repete frases que escuta. Tem tido dificuldades na escola e pensa que precisa de ajuda, o sofrimento já lhe toma conta. Na próxima semana tem consulta marcada...


Diagnóstico Psiquiátrico:
Critérios Diagnósticos do transtorno obsessivo-compulsivo segundo o DSM-IV:

Critério A: Presença de compulsões (atos repetitivos que aliviam os pensamentos) ou obsessões (idéias intrusivas normalmente egodistônicas).
Critério B: percepção do caráter não razoável das obsessões e compulsões em algum momento da doença.
Critério C: consomem tempo de modo a interferir na rotina do doente.
Critério D: afastar-se de outros diagnósticos do eixo 1 de modo que a sintomatologia possa se dever ao TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) propriamente dito.
Critério E: os sintomas não se devem ao efeito direto de substância psicoativa.

Literatura:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
(C D Andrade)

Pedro Shiozawa

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Postagens relacionadas: Não consigo parar...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Milagre: bebê volta a respirar depois de duas horas declarado morto

(Por Hilary White) - Médicos ficaram perplexos em abril quando um bebê prematuro que havia sido declarado como morto por eles pareceu voltar à vida depois de duas horas encostado à sua mãe. A equipe havia entregado o menino, Jamie, um gêmeo, para sua mãe segurar e “dizer adeus” depois que o menino de 27 semanas de gestação havia sido pronunciado como morto. O médico que estava dando atendimento havia passado 20 minutos depois do nascimento tentando fazer o menino respirar.

Kate Ogg, de Sydney, Austrália, segurou o bebê diretamente encostado na sua pele e quando ele mostrou sinas de vida, lhe deu algum leite materno na ponta do dedo.
Mas Kate e seu marido David Ogg dizem agora que temem que seu filho, que nasceu junto com sua irmã gêmea Emily, poderá sofrer danos cerebrais ou sofrer complicações médicas de longo prazo porque seu médico não acreditou neles quando o menino mostrou o que os pais criam eram sinais de vida. Depois que Jamie começou a se mexer, eles pediram que o médico voltasse, mas ele recusou, enviando a parteira para dizer que o bebê estava simplesmente nos últimos momentos de agonia da morte.

“Sabíamos que o medico não estava voltando. Por isso, o chamamos de novo”, Kate Ogg disse mais tarde para um entrevistador na TVl da Austrália. “Nesse meio tempo, a parteira fez algumas filmagens e minha mãe e minha irmã estavam tirando fotos de nós. Meu marido acabou dizendo: ‘Vão e digam ao médico que não estávamos prontos para dar atenção à explicação dele de como o bebê morreu. Será que ele pode vir e explicar isso de novo?’ e foi aí que ele voltou”.

Jamie só acabou recebendo cuidados médicos duas horas mais tarde.
Um amigo do casal Oggs disse para o jornal Daily Mail que “Para ser justo, os médicos acreditam com sinceridade que Jamie estava morto. Quando ele voltou ao quarto, até ele disse para Kate que isso era um milagre”, mas acrescentou que se Jamie sofrer efeitos colaterais pela falta de tratamento, não poderia haver ação legal.

A Sra. Ogg disse para o programa de televisão australiano Today Tonight que ouvir as palavras de que seu bebê estava morto “foi o pior sentimento que já tive”.
Quando Jamie foi entregue a ela, ela disse que queria segurá-lo encostado diretamente na pele dela.

“Tirei a camisola hospitalar e o ajeitei em meu peito com a cabeça dele sobre meu braço e só fiquei ali segurando-o. Ele não estava fazendo nenhum movimento e nós simplesmente começamos a conversar com ele. Nós dissemos a ele qual era o nome dele e que ele tinha uma irmã. Dissemos a ele as coisas que queríamos fazer com ele durante a vida inteira dele”.
Jamie começou a ofegar, mas seus pais foram informados de que isso era apenas ação “reflexa”.

“Mas então o senti se mover como se ele estivesse espantado, então começou a lutar mais para respirar até que sua respiração foi normalizando. Dei para Jamie um pouco de leite materno no meu dedo, ele o recebeu e começou a respirar normalmente”.
“Pensei: ‘Oh, meu Deus! O que está acontecendo?’ Um curto tempo depois ele abriu os olhos. Foi um milagre. Então ele estendeu a mão e agarrou-me o dedo. Ele abriu os olhos e moveu a cabeça de lado a lado. O médico ficava balançando a cabeça e dizendo: ‘Não acredito nisso, não acredito nisso’”.

Fonte:
O Verbo


Por Suely Laitano nassif

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Onde fica o humano na clínica?

Da parte para o todo
Da especialização à clínica geral

Como enxergar o humano sem vê-lo no seu todo?
Como tratar se tudo é visto separado?
Como juntar?
Se quando junta a instituição não suporta...
É pequena demais para acolher o homem na sua complexidade.

Seria essa a questão?




Bianca Giannotti Barros

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O espantalho: impressões na clínica

O espantalho veio simbolizar um pulsar recente e antigo.
O espantalho se revelou a mim em meio a este conflito que vivo:
o clinicar doente da clínica....

A pedra que tampa o poço
se faz verdade nestes dias enlouquecidos de razão e ciência....
A pedra que tampa o poço faz-se o próprio poço
e esquecemos da água por debaixo da pedra
e a vida passa a ser mais tangenciável, mas vazia.

Assusta-me o que vejo e penso:

no momento de aflição
quando o ser vai em busca de outro ser
para nele despejar seu fragmentado ser
em tentativa instintiva de se recompor,
o vaso que recebe o doente
é um torpe fragmentado e ácido recipiente.
E o ácido recipiente faz-se naquele que o busca
e perde-se em seus próprios medos e anseios.

Lembro-me de Pessoa...

"Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das cousas: são belas?"


e reflito.....

não vemos o outro
vemos nós mesmos naquele que nos busca
e somos nós mesmos no que julgamos do outro
como pode ser assim na clínica?
Não pode!

Não pode
porque se pudesse
seriamos nós a fazer no outro
nossos próprios conflitos, sem ver, sem sentir;
seriamos cegos de branco
numa cegueira camuflada de ciência
a fugirmos de nós mesmos.

E ainda assim
é isso que vejo
e é isso que nos circula.
Uma atividade diária
embebida em empirismo e estatística
que nega a intuição
que nega o sentimento
que nega o ser no humano
que nega o humanismo do ser
que se esqueceu do coelho
que ao ver o coelho, vê um pano de fundo branco a conter um relógio.
Somos espantalhos!

Somos espantalhos
a não sentir
a fazer-nos presentes sem sermos mais que palha
aprisionados em torpes botões de camisa
sem poder sorrir
a amedrontar
a poder ser
e nunca vir a ser.
Caminhamos para o vazio do esquecer o subjacente
navegamos por tanto
e passamos a crer que a viagem encerra-se em si mesma.

Não sentimos
negamos o sentir
não ousamos sentir...

Em que medo sincero
em que dor real
terá se perdido
a sensação de estarmos a conversar com o abismo e a escutá-lo?

Em que canto errático de nós mesmos
teremos ficado?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Pedro Shiozawa