quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Um pouco mais sobre a trajetória da Mariposa

Concordo que a mariposa busca a luz, fica presa e morre. Mas isso só acontece quando ela busca sua liberdade na luz errada, ou seja, na luz artificial. Durante sua vida, ela busca a luz por diversas vezes e, encontrando a luz natural, ela voa livre. Mas, em um dia fatídico, depara-se com o não-natural, e morre. O que é a luz artificial senão uma imitação da luz natural do sol? O que o artificial causa na vida do homem? E dos animais? O conforto do artificial traz o alto preço da morte, muitas vezes. Creio que uma discussão interessante poderia surgir desse tema...

E o que é o espantalho senão um homem artificial, criado para enganar o corvo, assim como a luz engana a mariposa? O espantalho pode, então, ser a encarnação daquilo que o homem cria para seu próprio benefício em detrimento do susto, do medo e da morte do outro, sendo esse outro encarnado aqui pelo animal. Assim como o corvo e a mariposa se deixam enganar pela luz e pelo homem artificial, também nós nos deixamos enganar por 'remédios' e 'soluções' que nossas culturas trazem, como o próprio processo de letramento...

Renata Quirino de Sousa

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Mariposa: uma metáfora sobre a clínica

Depois de algum tempo sem escrever
sou embalado pela lembrança de uma mariposa como esta a pousar na luminária,
que a mim, me são duas:

Há alguns anos um amigo querido, dado àquilo que outrora considerei exotérico por não me atrever ao esotérico, me remeteu ao símbolo da mariposa: o flutuar entre o ser e o já não - estar, este que para ele era a travessia.

Carreguei por tanto aquela imagem, por vezes me lembrando, por vezes deixando-me esquecer.

Passaram-se os anos e, durante a faculdade retomei com freqüência estrofes inusitadas de poesias lidas ao acaso, umas mais constantemente que outras, em situações diferentes que fossem: temos sido cúmplices camaradas, amigos antigos, confidentes de viagens.

A mariposa esteve a plainar para no momento seguinte voar para longe e depois retornar.

Na rotina árdua as exigências passaram a ser outras e o navegante acreditou e perdeu e sofreu e ganhou e lutou e mudou e ousou e voltou a ousar...

Sempre no caos da improbabilidade do dia a voltar a si mesmo, ao cerne do que começou a andar, à rosa única do planeta, àquilo que se é e se perde em nós.

A clínica passou a fazer-se rotina, mas afinal o que é a clínica para este que há tão pouco se apresentou?

Não acredito que possa se distanciar muito da fantasia feita desejo: o cuidar, o sentir cuidar. Mas as dores passadas e as por passar distanciaram o transeunte primordial do inocente e verdadeiro sentido: o navegante foi encerando-se em si mesmo de modo a se tornar, sem sabê-lo, em um torpe espantalho.

O sentir cuidar se transformou no não desconstruir; a verdade do toque tem sido substituída pela probabilidade do número; o olhar, pelo registrar; o estar pelo vir-a-ser.

Aos poucos os corvos assustados pelo objeto de palha, voltam ao campo. O eterno poder ser do espantalho torna-se o nunca se transformar, e então, o medo da ave esvai-se com a coragem do homem de palha: o navegante está à deriva para não mais voltar.

A mariposa pousada na luminária passa a ser apenas mariposa pousada na luminária: silêncio.

Pedro Shiozawa

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

"Não consigo parar..." - Um caso de TOC

Caso:
Maria tem 18 anos, lava louças, as seca e as guarda, lava a pia. Ela “não consegue ver nada sujo”, varre a casa, passa pano no chão, puxa a água do chuveiro, arruma a própria cama diversas vezes. Troca de roupa na hora se esta ficar suja. Separa e classifica os livros, por tamanho, cor ou tipo. Se contrariada, irrita-se. Movimenta a língua para os lados e para frente, tocando o queixo. Rói as unhas. Puxa os cabelos. Episódios de auto-agressão. Repete frases que escuta. Tem tido dificuldades na escola e pensa que precisa de ajuda, o sofrimento já lhe toma conta. Na próxima semana tem consulta marcada...


Diagnóstico Psiquiátrico:
Critérios Diagnósticos do transtorno obsessivo-compulsivo segundo o DSM-IV:

Critério A: Presença de compulsões (atos repetitivos que aliviam os pensamentos) ou obsessões (idéias intrusivas normalmente egodistônicas).
Critério B: percepção do caráter não razoável das obsessões e compulsões em algum momento da doença.
Critério C: consomem tempo de modo a interferir na rotina do doente.
Critério D: afastar-se de outros diagnósticos do eixo 1 de modo que a sintomatologia possa se dever ao TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) propriamente dito.
Critério E: os sintomas não se devem ao efeito direto de substância psicoativa.

Literatura:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
(C D Andrade)

Pedro Shiozawa

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Postagens relacionadas: Não consigo parar...

sábado, 4 de dezembro de 2010

A Pantera

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio.
Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
(Rainer Maria Rilke)

Fonte: http://mscamp.wordpress.com/2008/11/25/a-pantera-rainer-maria-rilke/

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Milagre: bebê volta a respirar depois de duas horas declarado morto

(Por Hilary White) - Médicos ficaram perplexos em abril quando um bebê prematuro que havia sido declarado como morto por eles pareceu voltar à vida depois de duas horas encostado à sua mãe. A equipe havia entregado o menino, Jamie, um gêmeo, para sua mãe segurar e “dizer adeus” depois que o menino de 27 semanas de gestação havia sido pronunciado como morto. O médico que estava dando atendimento havia passado 20 minutos depois do nascimento tentando fazer o menino respirar.

Kate Ogg, de Sydney, Austrália, segurou o bebê diretamente encostado na sua pele e quando ele mostrou sinas de vida, lhe deu algum leite materno na ponta do dedo.
Mas Kate e seu marido David Ogg dizem agora que temem que seu filho, que nasceu junto com sua irmã gêmea Emily, poderá sofrer danos cerebrais ou sofrer complicações médicas de longo prazo porque seu médico não acreditou neles quando o menino mostrou o que os pais criam eram sinais de vida. Depois que Jamie começou a se mexer, eles pediram que o médico voltasse, mas ele recusou, enviando a parteira para dizer que o bebê estava simplesmente nos últimos momentos de agonia da morte.

“Sabíamos que o medico não estava voltando. Por isso, o chamamos de novo”, Kate Ogg disse mais tarde para um entrevistador na TVl da Austrália. “Nesse meio tempo, a parteira fez algumas filmagens e minha mãe e minha irmã estavam tirando fotos de nós. Meu marido acabou dizendo: ‘Vão e digam ao médico que não estávamos prontos para dar atenção à explicação dele de como o bebê morreu. Será que ele pode vir e explicar isso de novo?’ e foi aí que ele voltou”.

Jamie só acabou recebendo cuidados médicos duas horas mais tarde.
Um amigo do casal Oggs disse para o jornal Daily Mail que “Para ser justo, os médicos acreditam com sinceridade que Jamie estava morto. Quando ele voltou ao quarto, até ele disse para Kate que isso era um milagre”, mas acrescentou que se Jamie sofrer efeitos colaterais pela falta de tratamento, não poderia haver ação legal.

A Sra. Ogg disse para o programa de televisão australiano Today Tonight que ouvir as palavras de que seu bebê estava morto “foi o pior sentimento que já tive”.
Quando Jamie foi entregue a ela, ela disse que queria segurá-lo encostado diretamente na pele dela.

“Tirei a camisola hospitalar e o ajeitei em meu peito com a cabeça dele sobre meu braço e só fiquei ali segurando-o. Ele não estava fazendo nenhum movimento e nós simplesmente começamos a conversar com ele. Nós dissemos a ele qual era o nome dele e que ele tinha uma irmã. Dissemos a ele as coisas que queríamos fazer com ele durante a vida inteira dele”.
Jamie começou a ofegar, mas seus pais foram informados de que isso era apenas ação “reflexa”.

“Mas então o senti se mover como se ele estivesse espantado, então começou a lutar mais para respirar até que sua respiração foi normalizando. Dei para Jamie um pouco de leite materno no meu dedo, ele o recebeu e começou a respirar normalmente”.
“Pensei: ‘Oh, meu Deus! O que está acontecendo?’ Um curto tempo depois ele abriu os olhos. Foi um milagre. Então ele estendeu a mão e agarrou-me o dedo. Ele abriu os olhos e moveu a cabeça de lado a lado. O médico ficava balançando a cabeça e dizendo: ‘Não acredito nisso, não acredito nisso’”.

Fonte:
O Verbo


Por Suely Laitano nassif