terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O dia em que James Hillman cruzou meu caminho - Parte2

Poderia discutir muitos outros elementos apontados por Hillman em relação à abordagem imagística, mas elegi especificamente o viés da palavra, pois quero falar da importância da materialidade do discurso. Em minha dissertação de mestrado, dediquei-me a refletir sobre a materialidade dos objetos no setting, como disse, por isso entendo que agora é hora de me aproximar da materialidade das palavras!

Este é, sem dúvida, outro atalho fundamental por onde Hillman se embrenhou ao propor uma abordagem imagística, enfatizando o trabalho com a imagem com base no discurso imaginal, e aprofundando esse campo de discussão aberto por Jung. É curioso que Jung não tenha seguido mais a fundo sua argumentação inicial, que enfatizava a relação entre imagem e texto, ainda que num texto sobre os sonhos, de 1945, ele diga, textualmente:

“A partir deste momento desisti gradualmente de seguir as associações que se afastassem muito do texto de um sonho. Preferi, antes, concentrar-me nas associações com o próprio sonho, convencido de que o sonho expressaria o que de específico o inconsciente estivesse tentando dizer”. (JUNG, 1964, pp. 50 – grifo meu)

Apesar de não diferenciar conceitualmente símbolo de imagem, como vimos anteriormente, Jung apresenta uma idéia bem precisa sobre a origem da imagem psíquica, como produção espontânea da fantasia, fundamentalmente de teor poético, desvinculado da mera reprodução visual de um objeto exterior (JUNG, 1921/1991, §827:417). Imagem, portanto, não deve ser entendida, de acordo com ele, como reflexo no fundo da retina, não é o olho sensorial que está em jogo, mas o olho imaginal!

Acredito que isso seja importante, pois é comum a associação da psicologia junguiana com uma clínica de imagens. Entretanto, parece-me que “imagem” é entendida de modo literal, e por vezes exclusivo, como imagem visual, e aqui temos uma oportunidade de afirmar o sentido poético original indicado por Jung para o termo imagem.

Tomemos como exemplo, o sonho de uma paciente:

“No sonho, fui ao banheiro e minha toalha da Minie tava pendurada. Eu pegava a toalha gritando com a Nadinha: “pô, porque você usou minha toalha da Minie?” Depois eu via a Nadinha vindo da cozinha, ela tava segurando minha caneca da Minie. Ela tinha acabado de cortar as mãos, sangrava muito, porque ela tinha ficado sem as duas mãos, só tinha os pulsos, como se tivessem amputado as mãos dela. Eu ficava desesperada e embrulhava os pulsos dela com a toalha da Minie. Depois eu já via ela melhor, com os pulsos cicatrizados.”

Poderíamos iniciar a análise desse sonho, tomando os dados do caso que indicam detalhes da vida consciente da paciente, afinal, Jung nos fez a indicação clara de que só é possível interpretar um sonho conhecendo a condição consciente do sonhador, dado o caráter compensatório da produção onírica inconsciente.

Mas não vou descarregar um caminhão de informações objetivas sobre a vida da paciente, porque ainda estou seguindo a regra de ouro sugerida por Jung, de não me afastar do sonho como texto ou do texto do sonho.

Então, seguindo esta recomendação, e nos atendo à narrativa do sonho, não passa despercebido que duas figuras imaginais se apresentam personificadas com nomes indicados no diminutivo: Nadinha e Minie, e parece que é precisamente no desdobramento da ação entre elas que se configura o sonho como imagem.

Apesar da paciente querer justificar a aparição de tais figuras associando-as a referências familiares do mundo da consciência – ela associa Minie com a Disney e Nadinha com uma amiga, cujo nome é Nadia –, mantive-me próxima da imagem como se apresentava, tentando não aderir a suas associações imediatas, pois entendo que estaríamos nos distanciando do sonho.

É curioso que Nadinha estivesse com as mãos amputadas e que a sonhadora fosse ao seu encontro com uma toalha da Minie, ou seria uma mini-toalha?

Nadinha, por sua vez, só aparece com as mãos sangrando depois de ter usado a toalha da Minie, que estava pendurada no banheiro. Ou será que ela perdeu as mãos na mini-toalha? Qual a relação entre a amputação, o sangramento, a perda das mãos, e a Nadinha que sangra? Será que ela sangra um nadinha de nádia?

Que Nadinha é essa? Com o que ela se parece? Será com um pequenino nada? Ainda não sabemos o que o sonho significa, puxa vida!! Como diz Hillman (1977: 27), ficamos nós duas juntas, a paciente e eu, ou nós três, a paciente, o sonho e eu, levando

tapas na cara, até que a paciente se compadeceu da Nadinha do sonho, chorou por suas mãos amputadas. Mas também se deu conta de que a mini-toalha-da-minie estancou o sangramento, que possivelmente tinha iniciado. E que apesar de parecer mini, foi suficiente para promover a cicatrização das mãos. Algo que a princípio podia ser tomado como uma tragédia fez a paciente perceber que o que é aparentemente mini, pode ser ambivalente o suficiente para ferir e para cuidar.

Nessa perspectiva, a Nadinha do sonho deixa de ser um nome próprio, um substantivo, um conceito referido a uma pessoa de carne e osso do convívio da paciente. Ela ganha ares de adjetivo, é a Nadinha que usa a tolha da minie, ou a mini-nadinha... E nós estabelecemos com a imagem um diálogo baseado no que Hillman propõe como método de “AMIGAR AS IMAGENS”, pois segundo ele “Nenhum amigo ou animal quer ser interpretado, apesar de clamar por compreensão” (HILLMAN, 1977: 21).

Então, não vamos tratar a Nadinha do sonho como um referente de algum conteúdo reprimido do campo da consciência da sonhadora. Deixemos que a “Nadinha-de-mãos-amputadas” se apresente e tenha as “mãos-que-sangram” cicatrizadas na “mini-toalha-da-minie”!

Vejam, eu não estou obcecada por estabelecer um significado unívoco para o sonho, não quero identificar a Nadinha com nenhum elemento relacionado à Nádia da vida real, não quero tomá-la no sentido objetivo, porque não quero submeter o mundo das imagens ao mundo do ego vigil. Então, alguns significados podem ser alinhavados entre si e promover sentidos, ainda que de caráter ambivalente, mas só a partir das próprias imagens e do que elas apresentam, não a partir do que suponho que elas possam significar em relação à consciência.

É claro, poderia ter adotado uma postura diferente, e vasculhado em minha memória algum mito ou conto de fadas em que uma princesa perde as mãos, certamente deve haver alguma. Mas se fizesse isso, estaria mais uma vez me distanciando da imagem do sonho, porque qualquer heroína que perca as mãos ou os pés não seria a “nadinha-que-machucou-as-mãos-no-contato-com-a-tolha-da-minie”. Essa “nadinha” não existe em lugar algum, a não ser nesse sonho!

Poderia, como disse, ter recorrido à recomendação clássica de Jung, de tomar o sonho como uma compensação à atitude unilateral do ego. Para isso, deveria ter esclarecido uma série de dados objetivos sobre a paciente. Entretanto, acredito que para sustentar uma postura imaginal, não preciso fazer isso, pelo menos num primeiro momento, justamente para evitar o vício da interpretação hermenêutica que facilmente atribuiria sentidos universais aos elementos do sonho, e impediria que vocês me acompanhassem no trabalho com as imagens como propus aqui.

Desta forma, assumo minha aproximação com o Jung que ofereceu argumentos teóricos em favor de uma clínica da imagem e, claro, toda escolha tem suas conseqüências, é uma declaração subjetiva, como ele mesmo dizia.

Essa escolha não é aleatória, mas fruto de uma reformulação vivida ao longo da elaboração de minha dissertação de mestrado (OLIVEIRA, 2006), defendida em maio deste ano, que representou uma espécie de iniciação, provavelmente em aspectos mais amplos do que era possível descrever naquele momento.

O sentido iniciático que se apresentou mais claramente foi do ponto-de-vista teórico, como é de se esperar num trabalho dessa natureza. Ao ler e reler os textos de Jung para fundamentar minhas idéias sobre o tema central da pesquisa, constatei que diante da vastidão de sua obra, diferentes leituras podiam ser empreendidas.

Nesse percurso me distanciei do Jung da clínica da amplificação ou da clínica da compensação, e também da clínica da individuação do ego, fui em direção à clínica da individuação da imagem, como Hillman propõe.

Então, a pergunta que não quer calar: serei eu ainda uma junguiana? Não me preocupo mais em encontrar a resposta para essa questão. Vamos tratar esta questão como uma imagem! Por hora, me ocupo de dar testemunhos de como faço a minha clínica. Afinal, é só falando aos nossos pares sobre nossa prática que podemos nos ouvir e perceber o que nos sustenta em termos teóricos, o que espero ter feito, pelo menos um pouco, na companhia de vocês essa noite.

Santina Rodrigues

Fonte: Artigo postado no Blog: Himma: Estudos em Psicologia Imaginal - sábado, 6 de novembro de 2010
http://grupohimma.blogspot.com/2010/11/simbolo-signo-imagem-reflexoes-de-uma.html

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O dia em que James Hillman cruzou meu caminho - Parte1

Este é um dos mais importantes textos escritos para aqueles que desejem se aprofundar nas inovações e revisões que a Psicologia Arquetípica de James Hillman traz para dentro do campo teórico junguiano.

Santina Rodrigues constrói um minuncioso e preciso percurso que culminou numa nova orientação clínica-teórica do trabalho junguiano , realizado a partir do afastamento da perspectiva simbólica para a dimensão estético-imaginativa como Hillman a propõe e, ainda nos brinda (fato raro na literatura junguiana, pós-junguiana ou arquetípica) com breves cenas clínicas que nos ajudam a melhor compreender como se atualiza este método em nossa realidade cotidiana em nossos consultórios.


Marcus Quintaes


Símbolo, Signo, Imagem. Reflexões de uma clínica imaginal. 80 anos de James Hillman.

Como será que essas três questões se inter-relacionam? Por que escolhi usar o precioso tempo que me cabe esta noite para falar sobre o que imagino possa ser uma clínica imaginal? E por que fiz isso estabelecendo como ponto de partida esses três conceitos? E o que tudo isso teria a ver com James Hillman, afinal?

Hillman, um autor que fez e continua fazendo contribuições instigantes em relação ao texto de Jung, mas que cá entre nós, nos deixa tanto quanto Jung com pouquíssimos estudos de caso propriamente ditos.
Aliás, há pouco mais de uma década Hillman abriu mão de atender, comunicando isso abertamente num congresso internacional, como vocês devem saber! É o mesmo autor, inclusive, que escreveu um livro com um título de arrepiar os cabelos de qualquer crente em psicoterapia, lembram? “Cem anos de psicoterapia e o mundo está cada vez pior” (1995)!

Possivelmente, Hillman está a criticar um jeito de fazer psicoterapia, ou um tipo específico de psicoterapia, isso vocês vão entender melhor lendo o livro. Quero apenas adiantar que mais do que desqualificar a psicoterapia, o que ele propõe é uma revisão de suas bases representacionais. Ele critica acidamente – como lhe é habitual - a terapia como um espaço dedicado à produção incessante de sentidos, que viriam de fora para dentro, dos manuais e dicionários de símbolos, em detrimento do caráter fenomenológico da imagem.

Talvez o tom pessimista de Hillman nos seja útil, afinal, ele tem um terrível amor pela guerra, de idéias e pontos-de-vista. Imagino que todos nós que viemos a essas conferências em homenagem aos seus 80 anos, também!

Mas vamos começar pelo começo: eu sou uma psicóloga clínica, eu vivo do trabalho que faço na clínica. Atualmente, também, dou aulas num curso de graduação em psicologia analítica e supervisiono o trabalho clínico de alguns grupos na clínica da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em SP, mas mesmo na sala de aula, uso e abuso dos exemplos clínicos, de sonhos, atos falhos, símbolos e imagens!

Dito isto, quero compartilhar um incômodo que me acompanha há tempos. Eu normalmente só escrevo sobre aquilo que me incomoda ou que me deixa curiosa. Parodiando uma citação de T.S. Eliot, mencionada por Hillman no primeiro dos três textos da década de 70 em que ele discute o conceito de imagem, que diz, “Essas questões com as quais eu mesmo discuto muito, muito explicam ou esclarecem… (HILLMAN, 1977: 1). Vamos ver se um pouco disso pode acontecer aqui hoje!

É curioso como em diversos encontros, simpósios, congressos junguianos, observo os comentários de que as palestras foram ótimas, sobretudo aquelas voltadas à amplificação simbólica da obra de algum autor ou pintor famoso. Nós, junguianos, primamos pelo conhecimento dos mitos e sua aplicação como pano de fundo para discussões intelectuais interessantíssimas!

Mas, e esse “mas” tem um tom de lamento, mais do que crítica, não se observa uma ênfase na discussão sobre a clínica, ou sobre as razões que levam cada um de nós que enche as salas nos congressos, ainda que para comentar um atendimento clínico, a enveredar pelos caminhos dos mitos, perdendo de vista, muitas vezes, o paciente como objeto da discussão. Não é usual se expor mais especificamente o modus operandi do trabalho analítico que um junguiano faz. Por que não falamos mais da clínica, afinal?
No último encontro do Himma, realizado em junho desse ano, o tema era “Anima, múltiplas imagens na clínica”. Contei a história dos camelos que choram e do Antonio, um paciente que pôde finalmente chorar em paz, sem barrar a dor e a delícia de existir com antidepressivos, herdados da mãe (RODRIGUES, 2006).

De lá para cá, continuo a remoer os assuntos da clínica. Que clínica fazemos, ou pelo menos “que clínica faço eu”?

Há uma, bastante conhecida da grande maioria, pelo menos, junguiana, relacionada aos mitos e contos-de-fadas, ao uso da magia dessas estórias que encantam gerações através dos tempos, para ajudar o paciente que vem até nós, a entender e ter alento na relação com seu sofrimento. A amplificação, segundo Jung, nos dá um sentimento de pertença e de acolhimento, uma vez que permite ao indivíduo que vive sua dor isoladamente, se reconhecer nas peripécias de heróis e heroínas e, com isso, ter esperança de soluções para os conflitos do drama ou mito pessoal que encena.

Há outra, bastante articulada em torno de questões expressivas: pintamos e bordamos entre quatro paredes e falamos de símbolos! Pois os símbolos são, em companhia dos complexos, a via régia para o inconsciente. Nada de novo, estamos seguindo os passos de Jung, bem de perto. E provavelmente, nenhum outro autor deu tanta importância aos símbolos quanto ele! Sua pesquisa em torno do simbolismo do self, da mandala, da alquimia, dos arquétipos, é hoje conhecida em territórios além mar.

E, antes que me esqueça, há o estilo clínico em que o terapeuta fica obcecado em descobrir a anima, o animus, o self, e por aí afora! Puxa vida, mas onde foi parar o paciente, mesmo? Não sei se podemos chamar isso de clínica, tamanha é a devoção dessa prática aos conceitos.

E a clínica imaginal? Ela existe? O que seria isso? Ops! Acabei de tropeçar num vício que me distancia do que pode ser uma perspectiva imaginal, porque segundo Hillman, devo me preocupar menos em nomear “o que uma coisa é”, através de substantivos, e me lançar mais a experimentar, num intenso jogo de analogias, “como ela é”. Portanto, a pergunta é “com o que se parece” a clinica imaginal?!
Um exemplo: numa sessão uma paciente está às voltas com questionamentos sobre a origem de seu sentimento de inferioridade, presente em diversas circunstâncias, especialmente na relação com seu marido. Quando peço a ela que fale com o que se parece essa inferioridade, ela logo saca da manga do colete uma explicação de que isso acontece por conta de sua insegurança.

Responder prontamente, oferecendo um sentido para aquilo que a faz sentir-se inferior é sua marca registrada. É a eterna busca pela origem de seu mal, ancorada na fantasia de que isso vá torná-la poderosa e, portanto, livre de sua inferioridade. Ou seja, dando o nome “insegurança” para justificar sua inferioridade, ela apaga a sensação desagradável despertada pela inferioridade. Torna-se superior, enfim, vai para bem longe do que quer que a inferioridade possa querer lhe dizer.

Mas eu insisto e esclareço: inferior-superior são imagens que se apresentam amalgamadas, são palavras-imagem diferentes de “insegurança”. Com o que se parece essa inferioridade?

Ela aceita o desafio e se arrisca: ...“me sinto inferior como se eu fosse uma eterna criança; me sinto inferior como se eu nunca pudesse ser adulta; me sinto inferior, sem conseguir saber se o que sei vale alguma coisa; me sinto inferior como se eu fosse ridícula por não saber o que fazer nessa situação; me sinto inferior e vazia, como se eu não soubesse nada de nada…”

Conforme faz analogias, portas se abrem e encontramos muitas facetas da inferioridade que a assombra, como se estivéssemos numa sala de espelhos, onde não é possível afirmar qual das imagens refletidas é A imagem verdadeira de sua inferioridade, pois todas elas, em múltiplos sentidos e aparições são reais! Além disso, ganharam precisão: apareceu uma eterna criança que não acredita que pode vir a ser adulta; outra que se sente ridícula e vazia, com a sensação de que nada sabe.

Cada vez que a imagem “inferioridade” pôde ser detalhada ganhou contornos específicos, já que novos desdobramentos de idéias e sentidos foram criados, sem ter de ser substituídos por uma referência externa à imagem inicial que se apresentou: a inferioridade não foi substituída pela insegurança. Imagino que se tivéssemos seguido pelo caminho da insegurança, teríamos expulsado a inferioridade da sala! Mas ficamos próximas da imagem e ainda que falássemos de elementos ligados a ela, voltávamos a ela o tempo todo. A imagem foi, então, cumprindo seu papel dinâmico, ganhando densidade, como diz Hillman.

Substantivo, adjetivo, analogias, o que isso tem a ver com psicologia, sobretudo clínica?

Voltemos ao estatuto de imagem, que é a pedra angular, por assim dizer, da psicologia arquetípica de James Hillman. Cabe a ele as honras pela diferenciação primeira do sentido particular desse conceito em relação ao de símbolo, usualmente conhecido na psicologia junguiana, sobretudo pela escola clássica.
Quanto ao conceito de símbolo, observamos que Jung utiliza esse termo, em diferentes textos, como sinônimo do termo imagem. O autor se preocupa em esclarecer as diferenças entre os conceitos de símbolo, signo e alegoria (JUNG, 1921/1991, §904:444), mas não faz nenhuma distinção específica entre tais termos e imagem.

Recapitulando: de acordo com Jung, um signo diz respeito a um elemento conhecido do ponto-de-vista da consciência coletiva, ou seja, tem um sentido fixo, ao passo que um símbolo não, ele é dinâmico, tem uma parte conhecida e outra desconhecida.

Coerente com sua concepção e fundamentação teórica acerca da psique, que não privilegia exclusivamente o papel fundador da censura como no modelo freudiano, Jung considera que o inconsciente já existe antes da formação da consciência, sendo que esta se constitui e se reformula constantemente, a posteriori. Desta forma, a psique cria, sem parar, símbolos e imagens com os quais a consciência tem de dialogar a todo o momento (JUNG, 1934/2001).

A natureza desse diálogo, segundo Jung, depende profundamente de uma atitude simbólica da consciência, o que aponta para o fato de que algo não é simbólico em si, mas passa a sê-lo somente em decorrência da qualidade da relação estabelecida pelo ego, mais especificamente falando, com tal conteúdo, pois nas palavras de Jung “depende da atitude da consciência, que observa se alguma coisa é símbolo ou não; desde que considere o fato dado não apenas como tal, mas como expressão de algo desconhecido” (JUNG, 1921/1991, §907:445).

Jacobi, num estudo minucioso sobre três conceitos fundamentais da psicologia analítica, que compõem um livro bastante familiar a todo “bom junguiano de carteirinha”, esclarece que a raiz etimológica da palavra símbolo (1) admite “as mais variadas definições e interpretações” (JACOBI, 1995:74). E, segundo a autora, todas elas indicam que o termo símbolo designaria algo que, “por trás do sentido objetivo e visível, oculta um sentido invisível e mais profundo”. (JACOBI, 1995:75)

Jung se preocupa em apresentar o conceito de símbolo também como um transformador psíquico de energia, de caráter curativo e restaurador, apontando sua natureza altamente complexa, que apelaria às diferentes funções psíquicas (JUNG, 1921/1991, §911:447).
Entretanto, em diferentes enunciados, o aspecto do desconhecido que se apresenta à consciência, parece ser o “coração” ou a “raiz” do conceito de símbolo para Jung, talvez justamente pelo sentido de união de uma parte conhecida com outra desconhecida, já referido na etimologia do termo.

Por exemplo, quando Jung diz que “[…] todo fenômeno psicológico é um símbolo, na suposição que enuncie ou signifique algo mais e algo diferente que escape ao conhecimento atual” (JUNG, 1921/1991, §907:445). Ou ainda que “[…] o símbolo pressupõe sempre que a expressão escolhida seja a melhor designação ou formulação possível de um fato relativamente desconhecido, mas cuja existência é conhecida ou postulada” (JUNG, 1921/1991, §903:444).

De acordo com tal argumentação, a reunião das partes demanda, por parte da consciência, a busca de um sentido – desconhecido – que, adicionado à porção conhecida, produz finalmente um significado, o que pode, a meu ver, evocar uma atitude interpretativa unilateral frente à manifestação psíquica, seja o sonho, a obra de arte ou a palavra.

Ou seja, ainda que Jung se preocupe em apontar a necessidade de um diálogo da consciência com a imagem ou o símbolo, entendo que o significado etimológico do termo “símbolo” remete naturalmente à necessidade de ir em busca de uma outra parte ou aspecto da imagem, que estaria para além do que se apresenta como fenômeno.

Durante a elaboração de minha dissertação de mestrado, que tratava da materialidade dos objetos no setting, me encontrei com diferentes autores, que influenciaram minhas idéias, cada um a seu modo. Entretanto, o mais fértil e instigante encontro se deu com James Hillman. Talvez tenha sido esse autor que me lançou em novos atalhos para voltar à estrada principal, inspirada pela possibilidade de rever tudo o que já era suposto saber. Quando Hillman cruzou meu caminho, descobri que tudo ainda podia ser “re-visitado”, “re-imaginado”, “re-sonhado”, “re-visionado”, enfim.

Naturalmente, esse encontro foi também o mais assustador, porque me obrigou a abrir mão de algumas certezas para duvidar do que parecia óbvio. Ao dizer, por exemplo, que devemos “ficar com a imagem” (2), talvez Hillman esteja dizendo o óbvio: que não precisamos deixar a imagem sozinha e ir para outro lugar, por vezes distante, em busca de significados e interpretações brilhantes, porque a imagem traz em si seu significado. Basta ficar “circum-ambulando” ao seu redor, como dizia o próprio Jung: ficar junto dela e deixá-la falar. No melhor estilo da tradição dos alquimistas, com trabalho laborioso e paciente, o significado então se apresentará!

É numa seqüência de três textos do fim da década de 70 (conhecida como “trilogia das imagens”), que Hillman leva às últimas conseqüências esse exercício de particularização do sentido do termo “imagem” e do que ele chama de “abordagem imagística” (HILLMAN, 1977. 1978, 1979).

Hillman estabelece a diferença entre símbolo e imagem a partir de um contraponto entre uma base universal e outra, particular. Dito de outro modo, segundo ele, um símbolo está para um conceito ou substantivo que nomeia o objeto ou a experiência, como uma imagem está para uma condição particular ou adjetiva, que qualifica o objeto ou a experiência.

Segundo Hillman, portanto, cada um dos elementos de um sonho, tomados em separado, não devem ser entendidos como imagens. Isto porque, seguindo sua “regra de ouro”, símbolos podem vir a se tornar imagens, desde que inseridos num contexto particular, permeado por humor, configurando uma cena específica. Ou seja, um símbolo só pode ser tomado como imagem se puder ser qualificado precisamente num contexto.

Há, portanto, uma metamorfose lingüística em jogo, uma transformação de algo que antes era tomado como substantivo que, por conta de um artifício de qualificação, se transforma em adjetivo. Entretanto, não se deve tomar ingenuamente essa discussão como mera incursão gramatical! Pois se trata de um envolvimento erótico com as imagens, trata-se de se lançar num jogo de amor com elas, um jogo vincular, enfim, que se configura como o que Hillman caracteriza por “trabalho com as imagens”. Ou seja, uma imagem não é algo que se dá simplesmente, por natureza, mas precisa ser criada a partir de jogos da fantasia e embates múltiplos.

Um símbolo, por sua vez, serve à amplificação, pois permite uma consulta a significados universais identificados no campo cultural, normalmente catalogados nos dicionários de símbolos. A esse campo de pesquisa teórica, Hillman chama “simbologia”, o estudo dos símbolos.

Um símbolo, explica Hillman, localiza quanto a uma idéia principal, abarcando generalidade e convencionalidade ou o que conhecemos como uma base arquetípica das imagens. Uma imagem, ao contrário, localiza COMO o símbolo aparece, indicando um cenário subjetivo da situação narrada.

Por exemplo: uma paciente sonha que vai para uma festa, pois tem um encontro marcado com um homem, mas enquanto espera, é abordada por um grupo de crianças pobres. Uma delas se aproxima, toca seu braço esquerdo e lhe sussurra ao ouvido: bem-vinda ao mundo dos mortos!

Numa perspectiva simbólica, poderíamos elencar os vários símbolos que aparecem nesse sonho: encontro, criança, pobreza, lado esquerdo, mundo dos mortos.

Podemos sugerir uma série de significados para cada um desses símbolos isoladamente: um encontro marcado com um homem pode indicar um encontro com o animus, sobretudo no caso da paciente, que é do sexo feminino. A criança pode ser associada ao arquétipo da criança, um símbolo da novidade, da criatividade, mas também a sua sombra, afinal, faz parte de um grupo de crianças pobres; o braço esquerdo pode ser associado ao inconsciente, comumente identificado com o lado sinistro, como dizia Jung; finalmente, mundo dos mortos é o próprio nome do inconsciente, podendo ser associado a um caráter de transformação, de iniciação.

O próximo passo seria articular o significado de cada símbolo entre si: o sonho fala de um encontro marcado, possivelmente com o animus da paciente, sua dimensão masculina inconsciente. Esse encontro é antecedido pelo contato com um grupo de crianças pobres, o que pode indicar que faltaria à paciente, do ponto de vista consciente, recursos criativos para viver esse encontro, o que poderia ser resolvido desde que ela passe por uma transformação, integrando aspectos de sua sombra ao ego. Ou ainda, desde que ela se aproxime de sua criança interior empobrecida e dê ouvidos ao que ela tem a dizer. Outras variações também são possíveis: Talvez algo de sua natureza festiva precise aceitar o convite da morte, sofrer alguma depressão, ou se esvaziar, por exemplo.

Mas o que aconteceu ao interpretarmos o sentido de cada um desses símbolos separadamente, com base em seus significados universais? Hillman diria: perdeu-se o sonho!

Porque é só quando a paciente tem um encontro marcado com um homem e espera, que um grupo de crianças pobres a aborda; e é só quando uma das crianças pobres toca seu braço esquerdo que ela se abaixa; e é só quando ela oferece os ouvidos, que recebe a mensagem de boas-vindas ao mundo dos mortos!

E é possivelmente porque o homem não aparece que ela vive o encontro com as crianças pobres, o que nos faz pensar que talvez o encontro com o homem não se referisse exatamente a qualquer questão relacionada ao seu animus, mas precisamente com aquela criança que tocou seu braço esquerdo e lhe fez um convite ao pé do ouvido. Foi um convite sussurrado, não foi divulgado abertamente, apesar da criança fazer parte de um grupo. A precisão da narrativa do sonho nos diz que se tratava de um encontro a dois, mas não da sonhadora com um homem, supostamente seu animus, e sim, com aquela criança pobre.
Como num caleidoscópio, cada um dos elementos da narrativa do sonho precisam ser mantidos lado-a-lado, dialogando entre si, de maneira que várias imagens possam se formar ao fundo, mas nunca dissociadas do contexto específico deste sonho. Daí, não ser possível usar o significado universal de criança ou pobreza, pois é uma “criança-pobre-que-fala-ao-ouvido-e-dá-um recado”. Essa imagem não consta de nenhum dicionário de símbolos!

Portanto, vemos que uma imagem pode ser formada por símbolos (criança, pobreza, homem, mundo dos mortos), entretanto, o sonho como imagem se refere menos aos elementos em si, tomados separadamente, e mais à rede de relações dinâmicas entre tais elementos. Aqui, continuo seguindo a regra instituída por Hillman: buscando na especificidade do contexto a imagem.

Tentando ser coerente com tal perspectiva, as idéias de representação, projeção e interpretação – normalmente definidas a partir de um referencial hermenêutico – que se preocupa em resgatar um sentido oculto e desconhecido num território distanciado da imagem –, são propositadamente deixadas de lado o máximo possível, em busca de outra abordagem clínica, uma abordagem imagético-apresentativa.

Nesse sentido, Hillman se apega firmemente a um dos atalhos propostos por Jung: ficar com a imagem! E não se distanciar em associações ou amplificações que percam de vista a imagem nos sonhos, nos desenhos ou nas palavras.
Sabemos que muito desse método que Jung estabeleceu para abordar as figuras do inconsciente foi estabelecido em decorrência de suas experiências com a imaginação ativa, quando ele descobriu o que chamou de caráter objetivo da psique, sobretudo em seus diálogos com Filemon (JUNG, 1961/1975).

É fundamentalmente com base nessas experiências que Jung afirma que a imagem “não representa” nada, mas “apresenta”, ou seja, não esconde, mas revela significados que já estão presentes nela, pois a imagem é uma realidade em si mesma, por isso não necessita de uma tradução ou interpretação, o que foi também ressaltado por Sant’Anna (2001).

Santina Rodrigues

Fonte: Artigo postado no Blog: Himma: Estudos em Psicologia Imaginal - sábado, 6 de novembro de 2010
http://grupohimma.blogspot.com/2010/11/simbolo-signo-imagem-reflexoes-de-uma.html

continua...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Feliz Natal e Próspero 2011!

No início dos anos 60, o pintor espanhol Pablo Picasso eternizou a pomba como símbolo da paz, em uma série de gravuras que se tornaram famosas mundialmente.


Que neste tempo de Festas Natalinas, o símbolo bíblico da pomba possa nos anunciar a aliança com Deus, que traz paz e esperança após a tormenta, como no relato de Noé após o Diluvio!

Que neste tempo de Festas Natalinas, o símbolo bíblico da pomba possa nos anunciar a presença de Deus em nossas vidas, como em Sua aparição no batismo de Jesus Cristo!

Que neste tempo de Festas Natalinas, o símbolo bíblico da pomba possa nos anunciar a vinda do Espírito Santo, do “Espírito de Amor e de Luz” que traz conhecimento, compreensão, fortaleza e fé, como em Pentecostes.


Que neste Natal, você possa renovar e fortalecer sua fé no Novo Tempo,
para um Novo Ano coberto de bençãos e realizações!

Esses são os votos da Equipe Comentada para Você e sua Família!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Dois meses sem Gaiarsa

Uma vela acesa respira e o resultado é a chama.
O corpo respira e o resultado é a vida.
Nem a chama nem a vida são substâncias, mas processos.
A chama é tão diferente do pavio e da cera
quanto a vida, do corpo,
a gravidade, da maçã em queda
ou o amor, dos hormônios.


John W. Severinghaus

As funções cárdio-respiratórias estão no CENTRO de todos os movimentos contemporâneos de resgate:
do Corpo e da Emoção
da Angústia e da Liberdade
do Opressor e do Oprimido.

O texto que você tem nas mãos vai correlacionando continua e pormenorizadamente
o fisiológico
o psicológico
o social

a Psicanálise
o Simbolismo
a Fenomenologia
e mais

Não se tratam de análises, mas de uma síntese interdisciplinar na qual emerge aos poucos a imensa importância humana destas funções ditas corporais
(quase com desprezo...)!

Funções, aliás, que Freud ignorou de todo no seu projeto de estrutura psicossomática na personalidade humana.

Neste sentido, o texto de muitos modos completa - ou amplia - a Psicanálise.

Fonte: Resumo do livro "Respiração e Circulação" - José A. Gaiarsa

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Um pouco mais sobre a trajetória da Mariposa

Concordo que a mariposa busca a luz, fica presa e morre. Mas isso só acontece quando ela busca sua liberdade na luz errada, ou seja, na luz artificial. Durante sua vida, ela busca a luz por diversas vezes e, encontrando a luz natural, ela voa livre. Mas, em um dia fatídico, depara-se com o não-natural, e morre. O que é a luz artificial senão uma imitação da luz natural do sol? O que o artificial causa na vida do homem? E dos animais? O conforto do artificial traz o alto preço da morte, muitas vezes. Creio que uma discussão interessante poderia surgir desse tema...

E o que é o espantalho senão um homem artificial, criado para enganar o corvo, assim como a luz engana a mariposa? O espantalho pode, então, ser a encarnação daquilo que o homem cria para seu próprio benefício em detrimento do susto, do medo e da morte do outro, sendo esse outro encarnado aqui pelo animal. Assim como o corvo e a mariposa se deixam enganar pela luz e pelo homem artificial, também nós nos deixamos enganar por 'remédios' e 'soluções' que nossas culturas trazem, como o próprio processo de letramento...

Renata Quirino de Sousa

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Mariposa: uma metáfora sobre a clínica

Depois de algum tempo sem escrever
sou embalado pela lembrança de uma mariposa como esta a pousar na luminária,
que a mim, me são duas:

Há alguns anos um amigo querido, dado àquilo que outrora considerei exotérico por não me atrever ao esotérico, me remeteu ao símbolo da mariposa: o flutuar entre o ser e o já não - estar, este que para ele era a travessia.

Carreguei por tanto aquela imagem, por vezes me lembrando, por vezes deixando-me esquecer.

Passaram-se os anos e, durante a faculdade retomei com freqüência estrofes inusitadas de poesias lidas ao acaso, umas mais constantemente que outras, em situações diferentes que fossem: temos sido cúmplices camaradas, amigos antigos, confidentes de viagens.

A mariposa esteve a plainar para no momento seguinte voar para longe e depois retornar.

Na rotina árdua as exigências passaram a ser outras e o navegante acreditou e perdeu e sofreu e ganhou e lutou e mudou e ousou e voltou a ousar...

Sempre no caos da improbabilidade do dia a voltar a si mesmo, ao cerne do que começou a andar, à rosa única do planeta, àquilo que se é e se perde em nós.

A clínica passou a fazer-se rotina, mas afinal o que é a clínica para este que há tão pouco se apresentou?

Não acredito que possa se distanciar muito da fantasia feita desejo: o cuidar, o sentir cuidar. Mas as dores passadas e as por passar distanciaram o transeunte primordial do inocente e verdadeiro sentido: o navegante foi encerando-se em si mesmo de modo a se tornar, sem sabê-lo, em um torpe espantalho.

O sentir cuidar se transformou no não desconstruir; a verdade do toque tem sido substituída pela probabilidade do número; o olhar, pelo registrar; o estar pelo vir-a-ser.

Aos poucos os corvos assustados pelo objeto de palha, voltam ao campo. O eterno poder ser do espantalho torna-se o nunca se transformar, e então, o medo da ave esvai-se com a coragem do homem de palha: o navegante está à deriva para não mais voltar.

A mariposa pousada na luminária passa a ser apenas mariposa pousada na luminária: silêncio.

Pedro Shiozawa

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

"Não consigo parar..." - Um caso de TOC

Caso:
Maria tem 18 anos, lava louças, as seca e as guarda, lava a pia. Ela “não consegue ver nada sujo”, varre a casa, passa pano no chão, puxa a água do chuveiro, arruma a própria cama diversas vezes. Troca de roupa na hora se esta ficar suja. Separa e classifica os livros, por tamanho, cor ou tipo. Se contrariada, irrita-se. Movimenta a língua para os lados e para frente, tocando o queixo. Rói as unhas. Puxa os cabelos. Episódios de auto-agressão. Repete frases que escuta. Tem tido dificuldades na escola e pensa que precisa de ajuda, o sofrimento já lhe toma conta. Na próxima semana tem consulta marcada...


Diagnóstico Psiquiátrico:
Critérios Diagnósticos do transtorno obsessivo-compulsivo segundo o DSM-IV:

Critério A: Presença de compulsões (atos repetitivos que aliviam os pensamentos) ou obsessões (idéias intrusivas normalmente egodistônicas).
Critério B: percepção do caráter não razoável das obsessões e compulsões em algum momento da doença.
Critério C: consomem tempo de modo a interferir na rotina do doente.
Critério D: afastar-se de outros diagnósticos do eixo 1 de modo que a sintomatologia possa se dever ao TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) propriamente dito.
Critério E: os sintomas não se devem ao efeito direto de substância psicoativa.

Literatura:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
(C D Andrade)

Pedro Shiozawa

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Postagens relacionadas: Não consigo parar...

sábado, 4 de dezembro de 2010

A Pantera

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio.
Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
(Rainer Maria Rilke)

Fonte: http://mscamp.wordpress.com/2008/11/25/a-pantera-rainer-maria-rilke/

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Milagre: bebê volta a respirar depois de duas horas declarado morto

(Por Hilary White) - Médicos ficaram perplexos em abril quando um bebê prematuro que havia sido declarado como morto por eles pareceu voltar à vida depois de duas horas encostado à sua mãe. A equipe havia entregado o menino, Jamie, um gêmeo, para sua mãe segurar e “dizer adeus” depois que o menino de 27 semanas de gestação havia sido pronunciado como morto. O médico que estava dando atendimento havia passado 20 minutos depois do nascimento tentando fazer o menino respirar.

Kate Ogg, de Sydney, Austrália, segurou o bebê diretamente encostado na sua pele e quando ele mostrou sinas de vida, lhe deu algum leite materno na ponta do dedo.
Mas Kate e seu marido David Ogg dizem agora que temem que seu filho, que nasceu junto com sua irmã gêmea Emily, poderá sofrer danos cerebrais ou sofrer complicações médicas de longo prazo porque seu médico não acreditou neles quando o menino mostrou o que os pais criam eram sinais de vida. Depois que Jamie começou a se mexer, eles pediram que o médico voltasse, mas ele recusou, enviando a parteira para dizer que o bebê estava simplesmente nos últimos momentos de agonia da morte.

“Sabíamos que o medico não estava voltando. Por isso, o chamamos de novo”, Kate Ogg disse mais tarde para um entrevistador na TVl da Austrália. “Nesse meio tempo, a parteira fez algumas filmagens e minha mãe e minha irmã estavam tirando fotos de nós. Meu marido acabou dizendo: ‘Vão e digam ao médico que não estávamos prontos para dar atenção à explicação dele de como o bebê morreu. Será que ele pode vir e explicar isso de novo?’ e foi aí que ele voltou”.

Jamie só acabou recebendo cuidados médicos duas horas mais tarde.
Um amigo do casal Oggs disse para o jornal Daily Mail que “Para ser justo, os médicos acreditam com sinceridade que Jamie estava morto. Quando ele voltou ao quarto, até ele disse para Kate que isso era um milagre”, mas acrescentou que se Jamie sofrer efeitos colaterais pela falta de tratamento, não poderia haver ação legal.

A Sra. Ogg disse para o programa de televisão australiano Today Tonight que ouvir as palavras de que seu bebê estava morto “foi o pior sentimento que já tive”.
Quando Jamie foi entregue a ela, ela disse que queria segurá-lo encostado diretamente na pele dela.

“Tirei a camisola hospitalar e o ajeitei em meu peito com a cabeça dele sobre meu braço e só fiquei ali segurando-o. Ele não estava fazendo nenhum movimento e nós simplesmente começamos a conversar com ele. Nós dissemos a ele qual era o nome dele e que ele tinha uma irmã. Dissemos a ele as coisas que queríamos fazer com ele durante a vida inteira dele”.
Jamie começou a ofegar, mas seus pais foram informados de que isso era apenas ação “reflexa”.

“Mas então o senti se mover como se ele estivesse espantado, então começou a lutar mais para respirar até que sua respiração foi normalizando. Dei para Jamie um pouco de leite materno no meu dedo, ele o recebeu e começou a respirar normalmente”.
“Pensei: ‘Oh, meu Deus! O que está acontecendo?’ Um curto tempo depois ele abriu os olhos. Foi um milagre. Então ele estendeu a mão e agarrou-me o dedo. Ele abriu os olhos e moveu a cabeça de lado a lado. O médico ficava balançando a cabeça e dizendo: ‘Não acredito nisso, não acredito nisso’”.

Fonte:
O Verbo


Por Suely Laitano nassif

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

XXIV MOITARÁ

Evento: XXIV MOITARÁ - Por dentro da Metrópole
Data: de 26 a 28 de novembro de 2010


As grandes cidades do mundo são misteriosas. Sua multiplicidade inspira indagações, espantos, evitações, paixões. A SBPA tem o prazer de convidar especialistas e integrantes dessa pluralidade, com a intenção de compartilhar imagens e discursos.

Palestrantes:
Alexandre Pereira (antropólogo); Armando Prado (fotógrafo); Augusto Capelo (psicoterapeuta); Cláudia Grez (analista/Chile); Danilo França (sociólogo); Dartiu Xavier da Silveira (analista); Demônios da Garoa (grupo de música popular); Karina Biondi (antropóloga); Leniza Castello Branco (analista e cantora); Jorge Wilheim (arquiteto e urbanista); José Guilherme Magnani (antropólogo); Liliana Wahba (analista); Maria Inês Mantovani (museóloga); Maria Isabel Branco Ribeiro (Museu de Arte Brasileira - FAAP); Paulo Zanettini (arqueólogo); Roberto Gambini (analista)Rodney Taboada(analista).

Comissão Organizadora:
Augusto Capelo, Carlos Lacaz, José Guilherme Magnani, Leniza Castello Branco, Rodney Taboada, Selma Mantovani (Diretora de Eventos − SBPA), Tito Cavalcanti (Presidente SBPA), Vera Viveiros Sá, Victor Palomo.

Show de sábado do XXIV Moitará.

Os Demônios da Garoa fazem do entusiasmo do samba paulistano a marca registrada do grupo. Grande intérprete de Adoniran Barbosa, em 1965, gravou "Trem das Onze", (eleita em 2000, através de votação popular, a música-símbolo da cidade de São Paulo). Em 1994, os Demônios da Garoa entraram para o Guinness Book - Livro dos Recordes Brasileiro, como o "Conjunto Vocal Mais Antigo do Brasil em Atividade".

Informações: www.sbpa.org.br

domingo, 21 de novembro de 2010

I Seminário de Educação para Perdas e Humanização da Morte

Evento: I Seminário de Educação para Perdas e Humanização da Morte
Data: 26 e 27 de novembro de 2010
Local: PUC-SP Campus Sorocaba

sábado, 20 de novembro de 2010

IV Encontro Anual de Miniaturas

Evento: IV Encontro Anual de Miniaturas
Local: Atelier Pepp & Orson
Data: 27 e 28 de novembro de 2010
Horário: das 15h às 21h

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Lançamento do Livro: "A Dança de Shiva"

Livro: A Dança de Shiva
Autor: Ricardo Pires de Souza
Local: Livraria da Vila - Lorena
Data: 02 de dezembro de 2010
Horário: das 18h30 às 21h30

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Onde fica o humano na clínica?

Da parte para o todo
Da especialização à clínica geral

Como enxergar o humano sem vê-lo no seu todo?
Como tratar se tudo é visto separado?
Como juntar?
Se quando junta a instituição não suporta...
É pequena demais para acolher o homem na sua complexidade.

Seria essa a questão?




Bianca Giannotti Barros

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Lançamento do Livro: "Onde Judas Perdeu as Botas"

Livro: Onde Judas Perdeu as Botas
Autor: Gisele Werneck
Local: Centro Cultural b_arco - SP
Data: 18 de novembro de 2010
Horário: 20h30

Lançamento de Livro: "O Livro Vermelho - Jung"

Livro: O Livro Vermelho de Carl Gustav Jung
Local: Biblioteca Nacional - RJ
Data: 18 de novembro de 2010
Horário: das 15h às 18h

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O espantalho: impressões na clínica

O espantalho veio simbolizar um pulsar recente e antigo.
O espantalho se revelou a mim em meio a este conflito que vivo:
o clinicar doente da clínica....

A pedra que tampa o poço
se faz verdade nestes dias enlouquecidos de razão e ciência....
A pedra que tampa o poço faz-se o próprio poço
e esquecemos da água por debaixo da pedra
e a vida passa a ser mais tangenciável, mas vazia.

Assusta-me o que vejo e penso:

no momento de aflição
quando o ser vai em busca de outro ser
para nele despejar seu fragmentado ser
em tentativa instintiva de se recompor,
o vaso que recebe o doente
é um torpe fragmentado e ácido recipiente.
E o ácido recipiente faz-se naquele que o busca
e perde-se em seus próprios medos e anseios.

Lembro-me de Pessoa...

"Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das cousas: são belas?"


e reflito.....

não vemos o outro
vemos nós mesmos naquele que nos busca
e somos nós mesmos no que julgamos do outro
como pode ser assim na clínica?
Não pode!

Não pode
porque se pudesse
seriamos nós a fazer no outro
nossos próprios conflitos, sem ver, sem sentir;
seriamos cegos de branco
numa cegueira camuflada de ciência
a fugirmos de nós mesmos.

E ainda assim
é isso que vejo
e é isso que nos circula.
Uma atividade diária
embebida em empirismo e estatística
que nega a intuição
que nega o sentimento
que nega o ser no humano
que nega o humanismo do ser
que se esqueceu do coelho
que ao ver o coelho, vê um pano de fundo branco a conter um relógio.
Somos espantalhos!

Somos espantalhos
a não sentir
a fazer-nos presentes sem sermos mais que palha
aprisionados em torpes botões de camisa
sem poder sorrir
a amedrontar
a poder ser
e nunca vir a ser.
Caminhamos para o vazio do esquecer o subjacente
navegamos por tanto
e passamos a crer que a viagem encerra-se em si mesma.

Não sentimos
negamos o sentir
não ousamos sentir...

Em que medo sincero
em que dor real
terá se perdido
a sensação de estarmos a conversar com o abismo e a escutá-lo?

Em que canto errático de nós mesmos
teremos ficado?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Pedro Shiozawa

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A cruzada de um médico para recuperar o contato: Um ritual que transforma a ligação médico-paciente

Fonte: A Folha publica uma vez por semana alguns artigos do New York Times. Este artigo foi publicado em São Paulo, segunda-feira, 01 de novembro de 2010.
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Por DENISE GRADY

STANFORD, Califórnia - O doutor Abraham Verghese está em uma missão para trazer de volta o exame físico.

A apalpação, a observação e auscultação já foram quase consideradas técnicas mágicas do médico, que conseguia diagnosticar rapidamente um problema usando apenas o olhar aguçado, as mãos hábeis e o auxílio de um estetoscópio.
Presidente associado sênior de teoria e prática da medicina na Universidade Stanford, o doutor Verghese também é autor de duas memórias altamente aclamadas e de um romance categoria best-seller, "Cutting for Stone" ("cortando pedra" em uma tradução aproximada).

Arte e medicina podem parecer díspares, mas o doutor Verghese, 55, insiste que para ele são a mesma coisa.
Explica que as duas carreiras têm o mesmo princípio: "Curiosidade infinita sobre outras pessoas".
"As pessoas são mistérios sem fim", diz. Além da formação médica, ele tem um diploma de letras da Universidade de Iowa.

O exame físico parece estar sendo desperdiçado, diz Verghese, em tempos de inúmeros testes de laboratório e consultas extremamente rápidas ao médico.
Ele brinca que uma pessoa poderia mostrar que teve um dedo cortado, e os médicos insistirem em uma ressonância magnética, uma tomografia computadorizada e uma consulta ortopédica para confirmar.

O doutor Verghese treinou na Etiópia e na Índia, onde havia poucos equipamentos avançados. Ele ainda acredita que um exame minucioso pode produzir informações vitais e ajudar os médicos a decidir que testes solicitar e quais dispensar.

Um exame adequado também conquista confiança, disse, e serve como um ritual que transforma dois completos estranhos em médico e paciente.
Suas ideias repercutiram entre muitos médicos.
Com colegas, ele desenvolveu a Stanford 25, uma lista de técnicas que todo médico deveria saber, como auscultar o coração ou examinar os vasos sanguíneos no fundo do olho.
Fazendo rondas em hospitais, o doutor Verghese está em seu elemento.

Ele falou aos estudantes sobre uma condição incomum que produz fezes cor de prata.
Mandou residentes apalpar as próprias coxas enquanto lhes mostrava exatamente onde enfiar a agulha para tratar um caso de abscesso.
"Puxa, isto é ótimo", disse um deles. O doutor Verghese sorriu. "Estou aqui para surpreendê-los", disse.

Ele diz que, às vezes, se sente quase envergonhado por tanto interesse por seu trabalho, porque as técnicas são as mesmas que aprendeu décadas atrás.
Nascido na Etiópia, filho de pais professores indianos, as expectativas da família eram altas. "Você era um médico, um engenheiro, um advogado ou um fracasso", disse.

Verghese frequentou a escola de medicina em Adis-Abeba, mas, depois que começou a guerra civil na Etiópia em 1974, uniu-se aos pais, que tinham se mudado para os Estados Unidos.
Ele trabalhou no Tennessee durante os primeiros dias da epidemia de Aids.
Antes da Aids, disse, "eu devia ser um idiota arrogante, cheio de sabedoria. A Aids humilhou toda uma geração".

Certa vez um paciente perto da morte despertou quando o doutor Verghese chegou e abriu sua camisa para examiná-lo pela última vez.
"Foi como uma oferenda", diz o médico com lágrimas nos olhos. "Presidir sobre o leito de um homem agonizante em suas últimas horas. Eu o auscultei, percuti com os dedos, nem sei o que estava escutando.
Mas fazer isso diz: 'Eu nunca o deixarei. Não vou deixá-lo morrer com dor ou sozinho'. Não há um teste que você possa oferecer que substitua isso."

Suely Laiyano Nassif

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Refletindo sobre Sensopercepção - Parte 3

POR PEDRO SHIOZAWA

Uma vez posto do ponto de vista cientificista o funcionamento simplificado da estrutura sensoperceptiva, analisemos uma das obras do pintor Russo, naturalizado nos EUA, Mark Rohko que, em 1964, pinta um de seus trabalhos mais relevantes:

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“It was with the utmost reluctance that I found
the figure could not serve my purposes.
But a time came when none of us could use the figure
without mutilating it”.

(M Rothko)

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A Capela Rothko é uma capela não-denominacional em Houston, Texas fundada por John e Dominique de Menil. O interior serve não apenas como uma capela, mas também como local de exposição de um importante trabalho de arte moderna. Em suas paredes podem ser apreciadas quatorze pinturas negras com tons de outras cores, feitas por Mark Rothko. A forma e design da capela foram grandemente influenciados pelo artista. (Wikipédia, 2010)

Mas afinal, onde estamos?

Acredito que este trabalho particular me é algo elucidativo do que começo a entender como memória implícita. Estamos no centro de um galpão com iluminação centrífuga. Há 4 bancos dispostos no eixo cruciforme no solo e nas paredes repousam 14 pinturas em tela negra demonstrando variações de intensidade do negro e da luz, tal qual espelhar o ambiente que nos cerca. Não há figuras tangenciáveis à sensopercepção mais concreta, há o deixar-se observar aquilo que transcende o plano da pintura, há o conectar-se com o ambiente representado na tela, com a luminosidade apreendida no quadro.

No solo terreno de pedras da capela, a configuração dos bancos nos remete à simbologia do estar na cruz: no círculo determinado pelo ouroboros, o observador pode vir a estar... pode vir a religar-se com os raios de luz, com o pulsar que há no ambiente externo e, pode vir a reconhecer neste ambiente externo, reflexo do cósmico interno. Neste ponto, da confluência dos eixos, do ir para cima e para fora da obra, podemos, então, alcançar o dentro de nós. Só o faremos se antes tiver sido nossa a experiência implícita da memória. O pintor viu, sem ver. Os quadros, tal qual janelas da capela, por onde adentraria excessivamente a luz, me fazem lembrar da cegueira branca novamente. Me faz lembrar que a nitidez pode ser cega, que o concreto pode ser fosco e que talvez, a percepção que transcende os sentidos, essa a que talvez chamemos de intuição, possa nos mostrar que o caminho do de fora para dentro talvez seja o caminho do de dentro para fora.

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"Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela ?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça ?
Que amor não se explica ?
É a vela que passa
Na noite que fica."

(F. Pessoa)

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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Refletindo sobre Sensopercepção - Parte 2

POR PEDRO SHIOZAWA

Continuando sob o manto psicopatológico, transcrevo parte de texto informativo acadêmico sobre o tema:

“(...) Hoje não mais se admite, como acontecia no passado, que o nosso universo perceptivo resulte do encontro entre um cérebro simples e as propriedades físicas de um estímulo. Na verdade, as percepções diferem, qualitativamente, das características físicas do estímulo, porque o cérebro extrai dele informações e as interpretam em função de experiências anteriores com as quais ela se associe. Nós experimentamos ondas eletromagnéticas, não como ondas, mas como cores e as identificamos pautados em experiências anteriores.
Experimentamos vibrações, mas como sons, substâncias químicas dissolvidas em ar ou água como cheiros e gostos específicos. Cores, tons, cheiros e gostos são construções da mente, a partir de experiências sensoriais. Eles não existem como tais, fora do nosso cérebro.

Assim, já se pode responder a uma das questões tradicionais dos filósofos: Há som, quando uma árvore desaba numa floresta, se não tiver alguém para ouvir? Não, a queda da árvore gera vibrações e o som só ocorre se elas forem percebidas por um ser vivo capaz de identificar tais vibrações como estímulos sonoros.
A peculiaridade da resposta de cada órgão sensorial é devida à área neurológica onde terminam as vias aferentes provindas do receptor periférico. O sistema sensorial começa a operar quando um estímulo, via de regra, ambiental, é detectado por um neurônio sensitivo, o primeiro receptor sensorial. Este converte a expressão física do estímulo (luz, som, calor, pressão, paladar, cheiro) em potenciais de ação, que o transformam em sinais elétricos. Daí ele é conduzido a uma área de processamento primário, onde se elaboram as características iniciais da informação: cor, forma, distância, tonalidade, etc, de acordo com a natureza do estímulo original.

Em seguida, a informação, já elaborada, é transmitida aos centros de processamento secundário do tálamo. Se a informação é originada por estímulos olfativos, ela vai ser processada no bulbo olfatório e depois segue para a parte média do lobo temporal. Nos centros talâmicos, à informação se incorpora à outras, de origem límbica ou cortical, relacionadas com experiências passadas similares.

Finalmente, já bastante modificada, esta informação é enviada ao seu centro cortical específico. A esse nível, a natureza e a importância do que foi detectado são determinados por um processo de identificação consciente a que denominamos percepção.”
(PsiqWeb, 2005)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Refletindo sobre Sensopercepção - Parte 1

POR PEDRO SHIOZAWA

“já teria tomado consciência de possibilidades
que antes não lhe chamavam a atenção”

Neste ponto interessantíssimo, me volto novamente para a questão da memória interna.... momento oportuno para pensar sobre a sensopercepção... O que há de ser a sensopercepção? Psicopatologicamente podemos entender a senopercepção como a fusão de dois conceitos básicos:

• Sensação: Fenômeno gerado por estímulos físicos, químicos ou biológicos originários dentro ou fora do organismo, capazes de alterar órgãos receptores. (Dalgalarrondo, 2008)
• Percepção: Corresponde à tomada de consciência do estímulo sensorial. Dalgalarrondo, 2008)

A conceitualização acima, ainda que válida e útil, é de ordem pragmática, para melhor adequação aos manuais e à prática psiquiátrica atual, de modo que se faz não menos verdade do que inúmeras outras definições conceituais propostas por diferentes ópticas do conhecimento como a poesia, a arte, a filosofia, a física e, por que não, o senso comum.

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“Quem sou eu para mim?
Só uma sensação minha”.

(Fernando Pessoa)

“A percepção é o pensamento do pensamento alheio”.
(Fernando Pessoa)
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sábado, 11 de setembro de 2010

Transtorno Depressivo (F32)

POR PEDRO SHIOZAWA

Antonio tem 30 anos, trabalha em um banco e sempre foi um bom profissional. Casado há 10 anos, tem um filho de 8 anos, para quem sempre foi um herói. Há 6 meses Antonio está diferente conforme contam seus amigos mais próximos e seus familiares: ele anda distante, como se estivesse cansado. Antonio estava dormindo mais durante o dia, na verdade, era o que mais gostava de fazer durante esses meses, dormir. Sempre jogara futebol com seus amigos no sábado, mas estava em falta com eles a mais tempo do que gostaria. Por falar em gostar, Antonio parecia não gostar mais de nada. Antes sempre fora um aficcionado pelo seu time do coração, mas nem mesmo aos jogos estava assistindo. “Quero ficar na cama em silêncio” era o que falava o outrora alegre Antonio.

No decorrer dos meses, Antonio fora ficando sem energias, não comia, dormia bastante, estava sem concentração, sua memória estava prejudicada, parecia mais lento, era como se sua cabeça fosse um papel em branco. Sua esposa tinha que o estimular mesmo para as atividades básicas. “Se eu não insistir, ele não toma banho nem come direito, meu marido parece estar sem cor, sem brilho”, dizia ela.

Resolveram levá-lo ao médico, quando foi feito o diagnóstico de depressão. Iniciou-se tratamento e em poucas semanas a cor voltou à vida de Antonio. Hoje é sábado e Antonio deve estar jogando futebol com seus amigos, para vibrar com a vitória ou chorar pela derrota, como tem que ser.

CID - 10
Presença por pelo menos duas semanas de pelo menos dois dos seguintes sintomas: humor deprimido, anedonia, aumento da fatigabilidade e diminuição da atividade. Esses sintomas devem estar acompanhados de pelo menos 2 outros sintomas associados:
concentração e atenção reduzidas; autoestima e autoconfiança reduzidas; idéias de culpa e inutilidade; visões desoladas e pessimistas do futuro; idéias ou atos autolesivos ou suicídio; sono perturbado; apetite diminuído.

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Afinal, alegre ou triste?
Pensar nunca tem bom fim...
Minha tristeza consiste
Em não saber bem de mim...
Mas a alegria é assim...

(Fernando Pessoa)
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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Transtorno de Pânico (F41.0)

POR PEDRO SHIOZAWA

Maria, de 25 anos trabalhava no supermercado havia 5 anos. Há 3 meses fora promovida a um cargo de supervisão, o que acarretou maiores responsabilidades a já competente e preocupada mulher. Com o passar dos dias, a pressão no trabalho fez-se notar. Maria passou a ter dificuldades para dormir, o que fazia com que sua concentração durante o dia ficasse também prejudicada. Sua memória também não era a mesma, chegou até a se esquecer de trancar sua casa um dia ao ir trabalhar. O que estava acontecendo?

Seus colegas falaram que deveria ser o estresse e a convidaram para um passeio: iriam a um show de uma banda que gostavam. Maria, gradativamente mais ansiosa e preocupada, disse sim para o convite, ainda que ressabiada. No dia do show, ela também não havia dormido, estava mais irritada do que o de costume, mas foram todos: Maria e seus 5 amigos bem intencionados.

Chegando ao local do show, uma casa de espetáculos, o lugar já estava cheio. Tomaram seus lugares e, como que surgido do nada, o terror começou: Maria sentiu que seu coração batia cada vez mais forte, faltava-lhe o ar, as mãos enformigavam e o suor era frio. “Vou ter um ataque cardíaco”, pensou Maria. Seus colegas a levaram ao Pronto Socorro mais próximo, mas assim que chegaram, a crise estava passando. Os médicos fizeram exames e nada encontraram, atribuindo seus sintomas à ansiedade.

Maria voltou para casa e as crises foram ficando cada vez mais freqüentes, aconteciam até mesmo durante o sono e não tinham algum fator desencadeante específico. Maria afastou-se do emprego, o medo de ter crises a limitava e, quando pensava que estava perdendo o juízo, resolveu procurar ajuda psiquiátrica.

Foi diagnosticada Síndrome do Pânico. Iniciada medicação e psicoterapia, em um mês, Maria retomou seu emprego e vem mantendo seguimento com melhora do quadro.

CID - 10
Vários ataques graves de ansiedade autonômica num período de um mês em circunstâncias onde não há perigo objetivo; sem estarem confinados a situações conhecidas ou previsíveis e com relativa liberdade de sintomas ansiosos entre os ataques (ainda que ansiedade antecipatória seja comum).


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Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim.
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir

(Fernando Pessoa)

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Considerações finais sobre o estudo da Esquizofrenia e Religiosidade

POR PEDRO SHIOZAWA
A religiosidade tem-se demonstrado como fator intimamente relacionado ao enfrentamento da esquizofrenia pelos pacientes. Sua abordagem por parte da equipe médica é relevante para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas e melhor reconhecimento dos aspectos individuais da doença.
O impacto da religiosidade entre pacientes esquizofrênicos tem sido campo fértil para estudos principalmente descritivos do tipo corte transversal, de modo que apesar de hipóteses relevantes presentes em suas conclusões, o real entendimento da correlação entre religiosidade e doença mental ainda não está detalhadamente estabelecido.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Religiosidade e a Evolução da Doença

POR PEDRO SHIOZAWA
Considerando-se a recuperação do paciente portador de esquizofrenia, a espiritualidade desenvolve um papel-chave à medida que pode funcionar como fonte de busca por esperança e significado para as dificuldades impostas pela doença (Corin, 1998 ; Fallot, 1998 ; Tepper et al., 2001 ; Kelly et al., 2005).

A religiosidade tem sido relacionada à proteção contra comorbidades freqüentemente presentes entre pacientes portadores de esquizofrenia tais quais o abuso de substâncias (Mohr et al., 2006 ; Kendler et al., 2003) e o comportamento suicida (Dervic et al., 2006 ; Booth et al., 1998 ; Jarbin et al., 2004). A presença de delírios religiosos, no entanto, tem sido associada a uma evolução clínica desfavorável (Mohr, 2004).

Estudo realizado na universidade de Geneva demonstrou que para 90% dos pacientes seguidos, a religiosidade constituiu elemento facilitador para o enfrentamento da doença, garantindo menor abuso de substâncias, menor incidência de comportamento suicida e maior aderência ao tratamento (Mohr et al., 2006). A maior aderência ao tratamento por parte de pacientes que referiram a religiosidade como fator relevante no enfrentamento da doença foi amplamente estudado por um grupo de pesquisadores suíços (Mohr et al., 2006; Mohr et al., 2004; Borras et al., 2007).

Em revisão qualitativa de literatura recente realizada pela universidade de Yale, o autor correlaciona a presença de religiosidade entre pacientes portadores de esquizofrenia com menores taxas de re-hospitalização, destacando os aspectos protetores deste tipo de comportamento (Sells et al., 2004). Outros estudos demonstraram a mesma tendência (Koenig, 2007).

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Religiosidade, Esquizofrenia e os Delírios Religiosos

POR PEDRO SHIOZAWA
Um ponto chave no estudo da esquizofrenia tem sido a presença de delírios.

A interrelação entre delírios religiosos e religiosidade tem sido objeto de estudo na literatura, bem como suas variações de acordo com aspectos socioculturais, ainda que sua real etiopatogenia não está elucidada (Dalgalarrondo, 2007).

É fundamental destacar que não se podem delinear margens nítidas entre as crenças normais de indivíduos saudáveis e as crenças fantásticas de pacientes psicóticos, de modo que os delírios, especificamente aqueles de conteúdo religioso, devem ser analisados às luzes do contexto sociocultural no qual se insere o paciente (Koening, 2007 ; Pierre, 2001).

Em pesquisa conduzida na universidade de Manchester, postulou-se que tanto o comportamento religioso quanto a presença de delírios de conteúdo religioso podem representar maneiras encontradas pelo paciente para lidar com eventos negativos de sua vida e que o aumento da religiosidade entre pacientes esquizofrênicos pode ser entendido como conseqüência dos delírios religiosos e não como sua causa (Siddle et al., 2002).

Alguns estudos de neuroimagem tem se ocupado da melhor elucidação das bases orgânicas para a presença de delírios em pacientes esquizofrênicos, apontando para uma maior ativação do hemisfério cerebral direito em pacientes portadores de delírios crônicos, bem como a presença de hiperatividade do lobo temporal esquerdo e hipoatividade do lobo occipital esquerdo. (Pizzagalli et al., 2000 ; Puri et al., 2001).